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Dor de cabeça: tipos, cenários e sua presença entre os sintomas do pós-covid-19

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Dor de cabeça é um assunto comum, e não faltam motivos hoje em dia para usarmos este termo. Mas o fato é que todos devem estar atentos aos sinais que esta dor traz.

Com a chegada da pandemia, a dor de cabeça como em um quadro gripal é um dos sintomas relatados na covid-19, mas depois de o paciente estar livre da doença, esta dor tem aparecido entre as principais sequelas que os especialistas têm chamado de síndrome do pós-covid.

Atenção, tratamento adequado e diagnóstico precoce da situação são necessários nos casos em que a dor de cabeça não se limita apenas às preocupações do dia a dia, mas traz o risco de incapacitar o paciente para o trabalho e para a vida, pelo desconforto que perturba o paciente.

Quem fala com autoridade sobre o assunto é o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia Funcional, Doutor em Neurociências, Dr. Wuilker Knoner Campos.

O médico neurocirurgião da clínica Neuron Dor em Florianópolis explica que se devem levar em consideração quatro cenários para a dor de cabeça. Atualmente, ele é o responsável técnico pela clínica Neuron Dor, e está à frente do projeto de ambulatório pós-covid, na Neurologia.

De acordo com Dr. Wuilker, tínhamos antes da pandemia uma incidência normal de cefaleias e enxaqueca na população em torno de 30% a 40%.

“Agora, com certeza, com a pandemia, essa incidência vai aumentar. Porque as consequências da doença, junto com outros problemas neurológicos e respiratórios, são o aumento dos mais variados tipos de dor de cabeça. São as cefaleias pós-covid-19.”

Quatro cenários para se observar quando há dor de cabeça
De acordo com Dr. Wuilker, que também é Doutorado em Neurociências pela UFSC, devem-se levar em consideração quatro cenários para a dor de cabeça.

Cenário 1: dor esporádica
“O primeiro cenário é a dor de cabeça que acontece de forma esporádica: após muito tempo de jejum, ou em decorrência de algum tipo de alimentação, estresse, após longos exercícios, comida ou bebida”, cita.

“Esta é uma dor de cabeça mais comum, fica identificado que é só esta dor, não tem outro sinal, e normalmente é frontal e latejante. Então esse tipo de dor de cabeça esporádica, e quando está relacionada ao estresse, também acaba afetando a parte cervical e posterior”, diz.

Neste caso, que é mais de conhecimento popular, o próprio paciente toma o analgésico que está acostumado, que já tem em casa. Porém, mesmo assim, o médico faz um alerta.

“É preciso observar. Se ela for a mais forte já sentida na vida, de forma súbita, já é um sinal de que não é um sintoma bom. Porque você nunca tem dor de cabeça, ou tem dor esporádica, e tem de repente a pior já sentida, e de forma súbita, isso pode chamar atenção para um evento vascular acontecendo”, orienta.

Então, para sintomas súbitos e fortes na cabeça, sempre é necessário lembrar-se de eventos vasculares, do tipo AVC hemorrágicos ou aneurisma cerebral, aí é a cabeça toda que dói, realmente.

“Para esses dois pontos eu chamaria atenção. Quando é aneurisma, súbito temos a dor de cabeça e na nuca, muito forte também. A grande característica deste tipo de dor de cabeça que levanta uma bandeira vermelha de alerta é justamente ser súbito, de repente e muito forte. Pode estar havendo um sangramento cerebral, e isso requer uma condução imediata para um pronto-atendimento, porque trata-se de uma emergência”, alerta o neurocirurgião.

Ainda neste primeiro cenário, há dor de cabeça relacionada a um grande esforço, por exemplo, pós-relação sexual, pós-orgásmica, ou no ato de defecar, que exija esforço físico. E esses esforços podem fazer romper vasos na cabeça e são sinais de alerta.

“E estamos falando de um quadro de diferenciar o que é uma situação habitual, e o que tem um sinal de alerta. Claro, uma dor de cabeça associada a qualquer outro sintoma neurológico, tipo uma paralisia do rosto, numa parte do corpo, sonolência excessiva, também são bandeiras vermelhas de que o paciente deve ser levado a um pronto-atendimento”, ressalta Dr. Wuilker.

“Então, qualquer coisa que passe de uma dor leve sem outros sinais de alerta, deve ser avaliado de forma mais imediata”, diz. Outra coisa é você tomar o remédio habitual e a dor aliviar, é sinal de que está seguindo o curso benigno. Não tendo as bandeiras vermelhas, a tendência é melhorar.

Se piorar, aí realmente deve-se procurar um serviço médico. Dr. Wuilker cita que deve-se observar situações de dor de cabeça esporádica. E fala da diferença entre a dor de cabeça e daquela que é maligna, do tipo que acende a bandeira vermelha ou ‘red flags’. São sinais de alerta.

Cenário 2: quando as dores de cabeça são recorrentes
Dor de cabeça recorrente exige tratamento – Foto: Reprodução/Pixabay
Outro cenário é a pessoa que tem dor de cabeça todo o dia. Pode ser a enxaqueca, mas teremos aí dezenas de tipos diferentes de dores de cabeça e enxaqueca é um tipo. “Os tipos que temos hoje são quando essa dor começa a ser recorrente, semanal, por exemplo. Mais de duas vezes no mês já é recorrente. Uma vez na semana, é sinal de alerta”, diz Dr. Wuilker.

Esta situação acaba já sendo um efeito colateral, ou seja, incapacidade funcional. A pessoa já não consegue mais ter o mesmo desempenho na sua atividade de trabalho, no seu lazer, no seu convívio de família. A dor de cabeça passa a ser uma doença, ou seja, uma disfunção cerebral que você deve tratar, porque está tendo prejuízo na qualidade de trabalho e de vida.

“É o que chamamos de cefaleia crônica diária. A grande característica é que dói a cabeça toda, em aperto, normalmente na região frontal, o pescoço também dói, tem a tensão do dia a dia. Geralmente é mais no fim do dia, depois da ‘batalha’ do dia, posições erradas, estresse do trabalho, etc”, diz o médico da Neuron Dor.

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Terceiro cenário: cefaleia do abuso de analgésicos
“Você está tomando analgésicos para melhorar e está piorando a dor de cabeça. O uso diário ou abuso de analgésicos faz com que você cada vez tenha de tomar mais para poder conter a dor de cabeça. E aí você faz com que o corpo entre num ciclo vicioso de cada vez mais necessitar de analgésicos porque aquela dose não adianta mais hoje. Então precisa aumentar. Semana que vem, a mesma dose não adianta mais. Tem gente que toma, 10, 20 comprimidos por dia para dor de cabeça, sabendo que, na verdade isso está fazendo mal”, revela o especialista.

A cefaléia crônica é uma dilatação dos vasos e isso destende, aumenta a pressão do crânio, e acaba dando essa dor. Pode ser congênito, hereditário, etc. Esse tipo por abuso de analgésico vai merecer um tratamento especial, será necessária uma medicação específica.

Outro tipo de dor de cabeça mais comum é a enxaqueca. É de um lado só e vem acompanhado de outros sintomas, que geralmente não estão na cefaleia crônica, como fotofobia (irritação com a luz), fonofobia (irritação com barulho), a pessoa precisa ficar num lugar fechado, escuro. Ela costuma não ceder com analgésico e durar mais de um dia.

Às vezes têm pacientes que entram em estados enxaquecosos, a pessoa entra numa enxaqueca e perdura até por uma semana, pode causar crise convulsiva, síndrome confusional aguda, sai da órbita, fica como se estivesse com agitação psicomotora e é levado na emergência como se tivesse com abuso de droga.

“E a pessoa na verdade está tendo uma enxaqueca que tira ela do ar. A enxaqueca pode provocar até uma paralisia num lado do corpo. Compromete a função motora, mas normalmente é reversível”, explica o médico da Neuron Dor.

Todo o estado enxaquecoso ou cefaleia crônica tem uma pré-disposição a ter AVC isquêmico no futuro. Sobre o tratamento das cefaleias e enxaquecas, começa mapeando os principais causadores, geralmente relacionados com alimentos: chocolate, queijos, condimentos, temperos industrializados, amendoim, bebida alcoólica, podem ser o estopim. Grandes períodos de jejum também. Então há essa abordagem educacional alimentar.

A abordagem medicamentosa, normalmente tem dois tipos de remédio. Um que é chamado de preventivo, ou seja, o paciente vai ter de tomar todos os dias, para que faça a modulação da dor e diminua a intensidade, até que consiga zerar essa dor.

E se mesmo assim, ocorrer uma crise, será utilizado um medicamento ‘abortivo’, ou seja, que vai abortar a crise e são medicamentos mais fortes do que os analgésicos comuns e servem para abortar as crises. Além disso, existe a acupuntura, técnicas de relaxamento, massoterapia, que podem ajudar.

Quarto cenário: cefaleia pós-covid-19

Quem já teve Covid-19 poderá ter como sequelas variados tipos de dor de cabeça – Foto: Reprodução/Pixabay
O quarto cenário, segundo Dr. Wuilker Campos, é o do pós-covid. Inicialmente, o paciente que tem covid-19 relata como uma dor de cabeça de um quadro gripal. Dói a cabeça toda, pulsa, como um quadro viral.

Saíram da infecção, algumas pessoas podem ter adquirido uma cefaleia crônica, ou seja, a bagunça que o vírus faz quando entra no Sistema Nervoso Central é a anosmia, ou perda do olfato e paladar, ou seja, o vírus entrou no SNC, e tanto o vírus quanto a informação que ele traz, devido a essa enxurrada inflamatória de células produzidas pelo próprio organismo na luta contra o vírus durante a Covid-19.

Explica Dr. Wuilker que podem acontecer três coisas em relação à dor de cabeça no pós-covid:

“Primeira, nada. Segunda, o paciente já tem uma dor de cabeça e pode piorar, necessitando de ajuste de medicação, e a terceira é aquela pessoa que não tinha nada e começou agora a ter enxaqueca, cefaleia, ou seja, ela nunca teve nada e agora tem uma doença crônica.”

“Essa é uma das ‘heranças’ que a pandemia está deixando para as pessoas. Que é justamente a dor de cabeça diária. E o tratamento segue a mesma linha dos tipos existentes. Define-se com qual tipo a pessoa ficou e a partir disso, orientamos medicamentos ou terapias”, relata o especialista.

Incidência de dores de cabeça tende a aumentar

“Vai ter de ser feita uma releitura da dor de cabeça porque vai aumentar a incidência”, opina o médico, que está à frente do projeto de ambulatório pós-covid, na neurologia da clínica Neuron Dor.

“O sintoma que eu mais vejo como ‘herança’ da pandemia é a cefaleia. Depois, alguma alteração de humor, como depressão e ansiedade, e insônia. São os grandes legados ruins que a infecção tem causado”, avalia.

“Normalmente, tratamos cerca de dois meses, a pessoa alivia e consegue sair da dor de cabeça. Mas quanto mais precoce o tratamento, maior a chance de não cronificar. Mas se demora, abusa de remédio, contribui para a cronificação da dor de cabeça. Acha que vai passar e às vezes pode ficar para sempre e inclusive, pode se tornar incapacitante. Dor de cabeça incapacita no convívio, no humor, relacionamentos, qualidade de vida, ou seja, há um risco de a pessoa morrer em vida devido às dificuldades de viver com a dor de cabeça”, alerta o médico.

Sobre a Neuron Dor

No Hospital-Dia são realizadas consultas, exames, tratamentos, cirurgias e acompanhamento de pacientes, prioritariamente ambulatoriais de baixa complexidade, utilizando alta tecnologia para internações de no máximo 12 horas. O Centro de Tratamento de Dor Crônica Neuron Dor conta ainda com acesso para ambulâncias, sala de cirurgia e apartamentos com leitos para recuperação de pós-cirúrgico.

A clínica, em sua estrutura, também oferece consultas de encaixe rápido, sala de pequenos procedimentos e curativos, estimulação magnética transcraniana, e atendimentos em psiquiatria, psicologia, fisioterapia, acupuntura, neurologia, neurocirurgia, coluna vertebral, medicina da dor e dor oncológica.

A Neuron Dor aposta também na educação do paciente e na formação de profissionais de saúde, bem como em pesquisa através de parceiras com instituições de renome.

Fonte: ND Mais

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