Entenda os impactos da escala 5×2 para a folha de pagamento
Redução da jornada pode exigir contratação, horas extras ou reorganização da operação. Veja os principais itens para colocar na conta
por Adriana Bruno em
A possível adoção de uma jornada de 40 horas semanais, com dois dias de descanso, coloca uma questão importante para as empresas. Quanto a mudança da escala 6×1 para a 5×2 pode aumentar o custo da folha de pagamento?
Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o fim da escala 6×1 elevaria em 7,84% o custo da mão de obra no país. A estimativa considera trabalhadores formais, contratados pela CLT, e uma redução da jornada de 44 para 40 horas semanais sem redução salarial. Na prática, porém, isso não significa que toda empresa terá esse mesmo aumento na folha. A informação é do Diário do Comércio.
O impacto depende de como cada negócio vai compensar as horas que deixarão de ser trabalhadas como contratação, horas extras, reorganização de turnos, redistribuição de tarefas ou ganhos de produtividade.
“Tudo vai depender da operação. Há empresas que conseguirão reorganizar horários e processos sem aumentar o quadro. Outras, principalmente as que precisam manter funcionamento contínuo ou atendimento durante muitos dias e horários, poderão precisar contratar mais pessoas ou aumentar o volume de horas extras”, explica Marcel Zangiácomo, advogado trabalhista e sócio do escritório Galvão Villani, Navarro, Zangiácomo e Bardella Advogados.
Em entrevista ao Panorama Farmacêutico, Giuseppe Piccoli, fundador da Ponti e Futuro e membro da equipe de Especialistas do portal, reforça quea transição para uma carga horária de 40 horas e a escala 5×2 não é apenas uma alteração legislativa, é uma convocação para uma mudança de mentalidade.
“Como gestores, muitas vezes nos sentimos confortáveis dentro das linhas do campo que já conhecemos. A escala 6×1 tornou-se uma zona de conforto perigosa, onde a presença física do colaborador era confundida com eficiência”, comenta.
Piccoli ainda diz que a nova escala 5×2 é um convite para olhar para cima. “Quando reduzimos o tempo disponível, somos obrigados a aumentar a qualidade do tempo que resta. É aqui que a produtividade deixa de ser um conceito abstrato e se torna a única solução real para alavancar a lucratividade”, destaca.
Custo da hora trabalhada aumenta
Se a carga do colaborador passa de 44 para 40 horas semanais, mas mantém o mesmo salário, a empresa passa a pagar o mesmo valor por uma quantidade menor de horas trabalhadas.
Um profissional que recebe R$ 2.500 por mês, por exemplo, tem custo aproximado de R$ 11,36 por hora na jornada de 44 horas semanais, considerando o divisor de 220 horas mensais. Com a redução, o valor sobe para R$ 12,50 por hora, aumento de aproximadamente 10%.
Claudia Securato, advogada trabalhista e sócia do escritório Securato Advogadas, ressalta que esse percentual não representa um aumento automático de 10% na folha. “O 7,84% é uma estimativa média para o custo do trabalho, mas não significa que toda empresa terá esse mesmo aumento na folha”, afirma.
Reorganização deve entrar na conta
O aumento do custo da hora trabalhada não significa, necessariamente, que a empresa terá de contratar novos funcionários. “Antes de pensar em novas contratações, a empresa pode reorganizar escalas, horários e processos e buscar ganhos de produtividade”, explica Claudia.
No varejo farmacêutico, a avaliação deve considerar o horário de funcionamento das lojas, a distribuição das equipes ao longo do dia e os períodos de maior demanda. “Não precisamos reinventar a roda. As farmácias mais produtivas do Exterior já trilharam este caminho. Em muitas delas a jornada de trabalho reduzida já é uma realidade há anos, e o setor continua sendo um dos mais lucrativos e eficientes. Eles entenderam que o capital humano é valioso demais para ser desperdiçado em tarefas que um robô cumpre com mais eficiência e com custo menor em longo prazo”, destaca Piccoli.
Contratar ou pagar horas extras?
Quando a reorganização não é suficiente, a empresa precisa comparar o custo de contratar novos profissionais com o de manter o time atual por meio de horas extras. Se a necessidade adicional for pequena ou eventual, as horas extras podem ser uma alternativa. Quando a demanda é permanente, porém, o redimensionamento da equipe surge como opção mais adequada.
“A hora extra pode ser uma solução mais simples em um primeiro momento. Mas se passar a ser utilizada de forma habitual, pode acabar sendo mais cara do que redimensionar a equipe”, explica Claudia. A comparação deve considerar, de um lado, salário, encargos e benefícios de uma nova contratação e, de outro, o custo das horas extras e seus reflexos.
Custo total do colaborador
A simulação não deve considerar apenas o salário. Entre os itens que precisam entrar na conta estão:
- INSS patronal e FGTS
- 13º salário e férias acrescidas de um terço
- RAT e contribuições destinadas a terceiros
- Benefícios
- Horas extras e adicionais
- Regras e condições estabelecidas em normas coletivas
Benefícios como plano de saúde e seguro também devem ser contemplados nessa análise, já que alguns são pagos por empregado, independentemente dos dias trabalhados.