Exclusivo: furtos puxam perdas de quase R$ 3 bi nas farmácias
As chamadas perdas não identificadas cresceram 12% em um ano
por Adriana Bruno em e atualizado em
O varejo farmacêutico brasileiro conseguiu manter sob controle seu índice geral de perdas em 2025, mas enfrenta um novo desafio – o avanço dos furtos e roubos. É o que revela a mais recente pesquisa da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe).
Em entrevista exclusiva ao Panorama Farmacêutico, Carlos Eduardo Santos, presidente da entidade, revela que o prejuízo decorrente das perdas passou de 1,25% para 1,24% do faturamento, o equivalente a R$ 2,99 bilhões.
“Tecnicamente não podemos afirmar que houve redução. O resultado permaneceu estável. O que chama atenção é o crescimento da perda não identificada. O impacto desse tipo de ocorrência saiu de 0,43% para 0,49% da receita, uma alta de aproximadamente 12%”, analisa.
Na prática, essa categoria reúne principalmente furtos, roubos e outras divergências de estoque cuja origem não é imediatamente identificada pelas empresas. O avanço do indicador confirma uma preocupação que já vinha sendo observada pelo mercado nos últimos meses.
Canetas emagrecedoras ampliam risco
De acordo com o executivo, a demanda por medicamentos de alto valor agregado, especialmente as chamadas canetas emagrecedoras, elevou a atratividade das farmácias para ações criminosas. Embora a Abrappe não tenha dados específicos sobre a influência desses produtos nas perdas do setor farmacêutico, Santos avalia que a popularização desses medicamentos contribuiu para o aumento das ocorrências.
Bebidas lideram ranking de perdas no farma
Outro dado relevante é a presença das bebidas no topo do ranking das categorias mais afetadas pelas perdas. “O modelo das farmácias baseado em conveniência e diversidade do mix acaba aumentando a atratividade para furtos”, explica. Na sequência aparecem medicamentos éticos controlados, medicamentos de venda livre (MIPs), termolábeis, além da categoria de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos (HPC).
Índice de perdas por seção

Prevenção de perdas amadureceu no setor
Apesar da evolução dos furtos, a Abrappe não vê o canal farma como um setor despreparado para enfrentar o problema. Pelo contrário. “O setor vem reforçando investimentos em prevenção e segurança. Existe uma cultura consolidada de gestão de perdas dentro das farmácias”, destaca.
Uma das estratégias históricas do segmento é justamente o atendimento assistido. A abordagem ativa dos consumidores por parte das equipes de loja ajuda a inibir ações criminosas.
“O cliente atendido tende a reduzir as oportunidades de furto. Por isso muitas redes estimulam a oferta de cestas e a interação constante com o consumidor durante a jornada de compra”, observa.
Embora os furtos recebam grande atenção, eles não representam a principal causa das perdas do setor. Desse montante, cerca de R$ 1,8 bilhão está relacionado a produtos sem condição de venda, categoria que engloba avarias, danos operacionais e vencimentos.
O vencimento, isoladamente, responde por aproximadamente 80% dessas quebras, representando cerca de R$ 1,4 bilhão em mercadorias descartadas anualmente.
Entre as principais causas estão:
- excesso de compras
- falhas na previsão de demanda
- erros nos processos de abastecimento
- baixa acuracidade dos estoques
- inadequações na gestão do sortimento
- ausência de estratégias para escoamento de itens próximos ao vencimento
“O vencimento continua sendo uma das maiores fontes de perdas da farmácia, representando 76,98%. Já avaria operacional responde por 13,57% e muitas vezes o problema está na gestão de estoque e na falta de mecanismos para acelerar a venda desses produtos”, ressalta.
Algumas redes já vêm adotando iniciativas específicas para minimizar o problema, como áreas dedicadas à comercialização de itens próximos ao vencimento com descontos progressivos.
Tecnologia ganha protagonismo
Para conter o avanço das perdas, as farmácias estão retomando investimentos em tecnologia e inteligência operacional. Segundo Santos, após um período de retração provocado por pressões econômicas e competitivas, o setor volta a reforçar seus programas de proteção patrimonial.
Entre as principais soluções adotadas estão:
- sistemas eletrônicos antifurto
- etiquetas de segurança em produtos de maior risco
- monitoramento por câmeras
- ferramentas de auditoria de operações de caixa
- tecnologias de RFID
- rastreabilidade baseada em códigos bidimensionais
- recursos de inteligência artificial para identificação de comportamentos suspeitos
“A inteligência artificial já permite identificar situações como ocultação de produtos em bolsas e sacolas, além de apontar itens que passaram pelo checkout sem registro adequado”, explica.
A expansão de modelos de autoatendimento também exige atenção. Para o executivo, a adoção crescente de self-checkouts deverá demandar investimentos adicionais em monitoramento e análise de comportamento para evitar impactos futuros nos indicadores.
Cenário exige vigilância permanente
A combinação entre medicamentos de alto valor agregado, ampliação do mix de produtos e mudanças no comportamento do consumidor cria um ambiente que requer vigilância constante e investimentos permanentes em prevenção.
“O varejo farmacêutico é um setor maduro e consciente da importância do tema. A perda sempre existirá, mas o desafio é manter esses índices sob controle por meio de gestão, tecnologia e processos cada vez mais eficientes”, conclui Santos.