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Genética sugere rotas do parasita da malária até as Américas

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A análise do material genético dos parasitas causadores da malária ajuda cientistas a determinar sua possível origem e como teriam migrado de uma região para outra, aponta pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. O estudo demonstra que um dos parasitas, o Plasmodium vivax, apresenta diversidade genética relativamente alta na América do Sul e Central, em comparação com outras regiões com grande incidência da doença. A descoberta sugere que houve várias introduções do parasita no continente, seja trazido pelos primeiros povos que habitaram a região ou durante a colonização europeia.

“Os dois principais parasitas causadores da malária são o P. vivax, responsável por uma forma mais branda da doença, e o Plasmoduim falciparum, que causa uma forma mais agressiva, podendo evoluir para malária grave”, afirma a bióloga Priscila Thihara Rodgrigues, que realizou a pesquisa. A transmissão a seus hospedeiros vertebrados, como os seres humanos, ocorre através da picada de mosquitos do gênero Anopheles. “Ambos estão presentes no Brasil, porém o mais comum é o P.vivax, presente na amazônia e também na mata atlântica, onde é capaz de infectar homens e macacos”.

O estudo utilizou um conjunto amostral bastante diversificado, com amostras de DNA dos parasitas originárias das regiões onde a doença é mais comum – América, África, Sul e Sudeste da Ásia e Melanésia, na Oceania. “Foi realizado o sequenciamento do genoma mitocondrial destas amostras para inferir as vias e as datas de introdução destes parasitas na América”, explica Priscila. “Uma maior diversidade genética nas amostras das Américas sugere que o parasita pode ter sido introduzido ali de formas e em épocas diferentes”.

 

No caso do P. vivax, há diferentes hipóteses para sua introdução. “O parasita seria de origem africana, porém estudos publicados nos últimos dez anos sugerem que a população atual na Ásia é resultado de uma linhagem que migrou para do continente africano para o continente asiático”, diz a bióloga.

Os parasitas asiáticos podem ter sido reintroduzidos na África, principalmente em Madagascar e na África Oriental, através da migração de comerciantes indianos. “Na América, o parasita pode ter chegado antes da colonização europeia, através das migrações de povos da Melanésia que deram origem aos ameríndios. Também pode ter vindo após o início da colonização, no século XVI, com o comércio transatlântico de escravos da África”.

De acordo com a bióloga, um dos estágios de desenvolvimento do P. vivax é o de hipnozoito, quando o parasita fica dormente no fígado e pode ser ativado meses após a infecção inicial, causando recaídas. “Em algum momento ele é ativado e vai para a corrente sanguínea.

 

Este fato explicaria como o parasita foi capaz de chegar nas Américas junto com a migração humana, ou seja, a travessia feita pelos melanésios entre a Ásia e a América, via Estreito de Behring, foi concluída durante uma única infecção por P. vivax, provavelmente no período um ou dois anos, permitindo as infecções por recaídas de hipnozoitos”, aponta ela.

Já o P. falciparum não tem hipnozoito, então provavelmente o parasita chegou às Américas do Sul por outro meio, talvez com mosquitos infectados existentes nos navios negreiros.

Transmissão

No Brasil, a diversidade genética do P.falciparum é menor do que na América Central. “Há a hipótese de que o parasita pode ter sido selecionado em ambos os hospedeiros, humanos e mosquito. Ao chegar às Américas, a espécie teve de se adaptar aos vetores aqui existentes. Assim, apenas os parasitas que tinham uma mutação genética que permitia escapar da resposta imune desse novo mosquito sobreviveram. Este fato contribuiu para a redução da diversidade genética”, relata Priscila. Outra possível causa está relacionada ao uso generalizado da droga cloroquina no tratamento da doença, utilizada no Brasil a partir da década de 1940, e uma combinação de dose fixa de sulfadoxina-pirimetamina (SP), que foi adicionada ao sal de cozinha no Pará e Amazonas na década de 1960. “A resistência a estes medicamentos pode ter reduzido a diversidade genética do P. falciparum”.

 

Além da amazônia, o P.vivax é encontrado na mata atlântica, cuja vegetação tem características bem distintas. “Um fato curioso, é que nesta região é encontrado um parasita de macaco, Plasmodium simium, ausente em todas as outras regiões endêmicas de malária”, conta a bióloga. “Há evidências de que o P.simum é geneticamente indistinguível do P. vivax. É possível que tenha infectado primeiramente seres humanos e transmitido para macacos, pois o mosquito vetor obtém sangue tanto próximo das copas das árvores quanto ao nível do solo (dispersão vertical). Isso sugere que a malária na mata atlântica seja possivelmente uma zoonose [doença infecciosa de animais capaz de ser naturalmente transmitida para o ser humano], pois possibilita a transmissão entre humanos e símios”.

Priscila ressalta que o conhecimento genético do parasita da malária, principalmente da sua origem e de como chegou às regiões endêmicas, ajuda a entender como controlar a doença. “Essas informações permitem prever a ocorrência de infecções importadas e a eficácia do tratamento”, aponta. O trabalho de doutorado da bióloga, orientado pelo professor Marcelo Urbano Ferreira, foi realizado em parceria com o Swiss Tropical and Public Health Institute, na Suíça, e a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Fonte: USP

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