De paciente a gestora da farmácia especializada em cannabis
Empreendimento criado em Curitiba une acesso, informação e acolhimento em um mercado que acaba de ganhar nova regulamentação
por Ana Claudia Nagao em
A história da primeira farmácia especializada exclusivamente em cannabis medicinal no Brasil começa com uma superação pessoal. Aos 22 anos, Michele Farran recebeu o diagnóstico de artrite reumatoide, condição autoimune que transformou sua rotina em um exercício diário de resistência. Quinze anos depois, aos 37, ela se tornou sócia da Cannabis Company, em Curitiba (PR).
A trajetória de Michele mistura dor crônica, empreendedorismo e ativismo. Jovem universitária à época da descoberta da doença, ela enfrentou limitações físicas, inflamações persistentes e sucessivas tentativas de estabilizar a doença com tratamentos convencionais. A mudança começou quando conheceu o canabidiol como alternativa terapêutica.
“Não foi uma decisão impulsiva, mas fruto de pesquisa, orientação e necessidade. Aos poucos senti redução das dores, melhora da mobilidade e mais disposição. Foi quando recuperei o protagonismo sobre a minha própria história”, lembra.
A experiência pessoal revelou um problema ainda maior. O acesso à cannabis medicinal no Brasil ainda convive com burocracia, desinformação e estigmas. A dificuldade torna-se ainda mais intensa para pacientes em situação de vulnerabilidade, que enfrentam barreiras financeiras e regulatórias.
Foi desse cenário que nasceu a Cannabis Company. Mais do que um ponto de venda, a farmácia se posiciona como um espaço de acolhimento, orientação e educação. O estabelecimento trabalha com a oferta de produtos e suporte informativo. “Recebemos pacientes fragilizados, muitas vezes depois de uma longa jornada de tentativas frustradas. Informação qualificada e escuta ativa são fundamentais”, comenta.
Novo cenário regulatório para a cannabis medicinal
O avanço do setor também acompanha mudanças regulatórias. Com a nova regulamentação da Anvisa, por meio da RDC 1015, o país passa a contar com normas mais claras para produção e comercialização de produtos à base de cannabis. A expectativa é ampliar a oferta nacional, reduzir a dependência de importações, incentivar pesquisa científica e fortalecer a segurança jurídica.
Para Michele, o novo marco regulatório representa um passo importante. “Essas mudanças fortalecem a base técnica e sanitária do setor, possibilitando maior acesso terapêutico, incentivo à pesquisa e desenvolvimento nacional, e contribuindo para que os tratamentos se tornem mais acessíveis”, avalia.
Neurodivergente e após cerca de uma década com doenças autoimunes, ela entende que a vivência pessoal moldou sua maneira de empreender. “Cada decisão carrega a memória da jovem que buscava respostas para a própria dor e que hoje trabalha para que outras pessoas encontrem caminhos mais curtos, mais seguros e mais humanos”, finaliza.