GLP-1 transforma consumo no varejo no Brasil e no mundo
Experiência britânica aponta impactos relevantes na aquisição de alimentos, bebidas e até higiene bucal
por Adriana Bruno em
As canetas emagrecedoras representam um marco no tratamento de doenças crônicas como diabetes e obesidade. Mas seus impactos vão além da saúde e já começam a influenciar hábitos de consumo em categorias que vão de alimentos e bebidas a produtos de higiene bucal. É o que revela o estudo The Health Effect, divulgado pela Worldpanel by Numerator.
Embora a adesão aos medicamentos ainda seja relativamente baixa no Brasil — apenas 2,4% dos domicílios contam com pelo menos um usuário dessas terapias —, o conhecimento sobre a categoria cresce rapidamente. Entre março e abril deste ano, 32,5% dos lares latino-americanos declararam conhecer medicamentos para perda de peso, ante 26,6% em 2025.
No Brasil, entre os domicílios das classes A e B, a penetração dos tratamentos chega a 4,3%, percentual alinhado ao índice registrado entre os consumidores que conhecem a categoria (4%).
“Isso evidencia que o consumo ainda está concentrado entre famílias de maior poder aquisitivo, cenário que tende a mudar com a chegada de opções nacionais ao mercado”, aponta o estudo.
O potencial econômico do segmento também chama atenção. Levantamento do Itaú BBA projeta que o mercado global de medicamentos à base de GLP-1 poderá saltar de US$ 1,8 bilhão para US$ 9 bilhões até 2030, em um ritmo de crescimento próximo de 40% ao ano.
Brasil lidera conhecimento sobre GLP-1
O interesse dos brasileiros pelo tema está entre os mais elevados da América Latina. Segundo a Worldpanel by Numerator, 76% da população afirma conhecer medicamentos para perda de peso, avanço de seis pontos percentuais em relação aos 70% registrados em 2025.
A tendência é de aceleração do mercado nos próximos meses. A chegada do Ozivy, semaglutida lançada pela EMS, e a recente redução de preços do Poviztra e do Extensior, anunciada pela Eurofarma, devem ampliar o acesso aos tratamentos e estimular a adesão dos pacientes.
Oportunidades para novas categorias
Embora o setor de alimentos seja um dos mais impactados pelas mudanças de comportamento dos usuários de GLP-1, outras categorias também começam a se beneficiar desse movimento.
Durante o evento Getting the Strategy 2026, a Close-Up International destacou que as canetas emagrecedoras já figuram entre os principais motores de crescimento do mercado de wellness. Segundo a empresa, 41% da expansão dos dermocosméticos em 2025 pode ser atribuída ao avanço desses medicamentos.
“As canetas emagrecedoras são hoje um dos principais drivers de crescimento, impulsionando também categorias como dermocosméticos e vitaminas”, afirmou Filipe Campos, líder de Market Insights da Close-Up International.
A experiência internacional reforça essa tendência. No Reino Unido, onde a participação de domicílios com usuários de GLP-1 passou de 2,3% para 6,3% em apenas dois anos, os gastos com enxaguantes bucais cresceram 20% acima da média observada entre não usuários, enquanto as compras de gomas de mascar avançaram 24 pontos percentuais.
O fenômeno está associado à chamada “boca de Ozempic”, efeito colateral que pode provocar ressecamento bucal e alterações no hálito.
Em entrevista ao Mercado & Consumo, Mariane Morelli, CEO do Grupo Suppley, afirmou que a popularização das canetas está transformando o mercado de suplementação alimentar. “Não é apenas uma revolução do medicamento, mas uma revolução do consumo. As pessoas não estão usando essas tecnologias apenas para emagrecer. Elas estão mudando a forma como enxergam saúde, bem-estar e qualidade de vida”, afirma.
Impactos no varejo farmacêutico
O varejo farmacêutico também começa a sentir os efeitos dessa transformação. Para Admar Correa, diretor-executivo da Peers Consulting + Technology, o fenômeno revela uma jornada de consumo que vai muito além da compra do medicamento. “O usuário de GLP-1 está investindo mais em saúde de forma ampla. Os gastos com bem-estar crescem cerca de 18% após o início do tratamento, impulsionados por maior autoestima e foco no autocuidado”, afirma, citando levantamento da Reds Research.
Segundo ele, a democratização do acesso exigirá uma nova preparação das farmácias. “As redes que hoje gerenciam bem o giro da categoria podem não estar preparadas para o que vem a seguir. A dispensação responsável deixará de ser um diferencial para se tornar uma exigência regulatória e de reputação”, alerta.
Dados da Rock Encantech mostram que medicamentos para doenças crônicas, suplementos, vitaminas e produtos de nutrição registram crescimento de 9,3% impulsionado por esse novo perfil de consumidor. “Não é coincidência. Estamos falando do mesmo consumidor, mas com uma nova lógica de consumo”, observa Correa.
Já a pesquisa Consumer Pulse 2026, da Bain & Company, indica que usuários de canetas emagrecedoras aumentam em 14% a intenção de compra de produtos de beleza e em 26% a de suplementos alimentares.
Na avaliação do executivo, o varejo farmacêutico possui uma vantagem competitiva importante nesse cenário. “As redes que conseguirem estruturar uma jornada integrada, com atendimento qualificado, mix complementar de produtos e orientação contínua, poderão transformar um consumidor de alta transação em um consumidor de alta recorrência”, conclui.