Cannabis medicinal ganha escala e novos caminhos
Mercado movimentou R$ 971 milhões em 2025, alcançou mais de 870 mil pacientes e amplia presença em farmácias, telemedicina e compras públicas
por Adriana Bruno em
O mercado brasileiro de cannabis medicinal passou por uma transformação nos últimos dois anos, com a ampliação das vias de acesso ao tratamento. Em entrevista exclusiva ao Panorama Farmacêutico, Maria Eugênia Riscala, CEO da Kaya Mind, entende que o segmento – antes concentrado nas importações – se tornou mais pulverizado com a participação crescente das plataformas de telemedicina, das farmácias e do fornecimento público.
“A mudança também ocorre pelo aumento do número de fornecedores. Com mais alternativas de acesso, o setor deixou de depender de uma única frente de comercialização e passou a apresentar uma estrutura mais diversificada”, comenta.
Pacientes crescem acima do mercado
Em 2025, o mercado de cannabis medicinal movimentou R$ 971 milhões e ultrapassou 870 mil pacientes. A base cresceu mais de 30% em relação ao ano anterior, em ritmo superior ao avanço do valor de mercado. “É um movimento que tende a se perpetuar, ao apontar para uma redução dos preços dos produtos e a entrada de novos pacientes”, avalia.
Maria Eugênia ressalta que a evolução não pode ser atribuída a uma única frente. Houve incremento em todas as variáveis, com exceção do número de prescritores recorrentes, que permanece como um dos principais entraves para a expansão.
Mais acesso e aceitação
Outro avanço é a maior aceitação da cannabis medicinal pelo público. “Também avançamos na inserção do tratamento em alguns sistemas públicos, no aumento das vias de acesso e na atualização recente das normas da Anvisa”, destaca.
Diversificação das formulações
Para os próximos anos, uma das principais tendências é a diversificação dos tratamentos. A avaliação é de que diferentes perfis de pacientes demandam formulações distintas, ampliando o espaço para produtos além do óleo tradicional de CBD.
“Nem todo paciente vai ser tratado de forma benéfica com o óleo de CBD tradicional. Muitos precisam de um óleo balanceado, outros de uma formulação com CBG e, para alguns, se o formato for o óleo, provavelmente a adesão será baixa”, pontua.
Além disso, a incorporação da cannabis medicinal à rotina dos profissionais de saúde continua entre os principais desafios. “O principal desafio ainda é incluir o tratamento na rotina médica. Parte disso não ocorre por uma dificuldade do médico de entender algo que foge do protocolo tradicional”, ressalta.
Novas frentes para 2027
A expectativa para 2027 é de recordes em valor e número de pacientes. Entre os vetores estão a expansão das plataformas de teleconsulta, com atendimentos de menor custo, o fortalecimento da presença nas farmácias, o crescimento das associações e a ampliação das compras públicas.
Também estão no radar a abertura para farmácias de manipulação, novas formulações, o cultivo nacional e uma possível expansão e regulamentação das associações.
Outro fator que pode alterar a dinâmica do segmento é o cenário das importações. “Uma recente decisão dos Estados Unidos facilitou os trâmites para exportação de THC, o que pode indicar uma mudança positiva para o mercado brasileiro, considerando a participação dos produtos norte-americanos nas importações realizadas por pessoas físicas e indústrias farmacêuticas”, projeta.