Mulheres ganham destaque entre pacientes de cannabis
Paciente é majoritariamente adulto, tem entre 40 e 59 anos e busca tratamento para condições crônicas. Preparo da equipe é estratégico para o varejo
por Adriana Bruno em
O mercado de cannabis medicinal ganha novos contornos à medida que cresce o número de brasileiros em tratamento. O paciente é majoritariamente adulto, tem entre 40 e 59 anos e há forte presença feminina. Em geral, ele está em idade produtiva e convive com condições crônicas que exigem acompanhamento contínuo.
As prescrições mais frequentes estão relacionadas a dor crônica, ansiedade, distúrbios do sono e condições neurológicas. O público infantil também está presente, especialmente em algumas regiões, como o Norte.
Segundo dados do Anuário da Kaya Mind, o Brasil já soma mais de 873 mil pacientes em tratamento, alta de 30% em um ano. Para as farmácias, a expansão do público aumenta a necessidade de conhecimento sobre produtos, regulamentação e atendimento.
“O perfil é diverso e não existe um único paciente de cannabis medicinal. A farmácia precisa estar preparada para receber pessoas com diferentes idades, condições e necessidades de tratamento”, destaca Larissa Uchida, CEO da ExpoCannabis.
Óleo de CBD lidera o portfólio
O óleo com CBD é atualmente o principal produto encontrado nas farmácias e representa a porta de entrada para grande parte dos pacientes. O portfólio também inclui cápsulas, sprays e produtos de uso tópico.
As opções se diferenciam pela concentração de CBD e pelo tipo de extrato, que pode ser full spectrum, broad spectrum ou CBD isolado.
A RDC 1.015 ampliou para cinco as vias de administração para inalatória, oral, bucal, sublingual e dermatológica. Para o farmacêutico, isso aumenta a necessidade de domínio sobre composição, via de uso, exigências de receituário conforme a concentração, termo de consentimento, registro no SNGPC, possíveis interações medicamentosas e efeitos adversos.
“O dispensador precisa conhecer o produto e a regulamentação, mas também respeitar os limites de sua atuação. Ele avalia a prescrição, orienta o uso correto e encaminha o paciente ao prescritor quando necessário”, pontua Larissa.
Acolhimento é parte do atendimento
Dúvidas, receios e até preconceitos relacionados à cannabis podem acompanhar o consumidor até o balcão. Por isso, o atendimento deve ser conduzido sem julgamento, com linguagem simples, baseada em evidências e sem promessas de cura.
A prescrição é indispensável para a dispensação. A partir dela, o farmacêutico orienta sobre utilização, armazenamento e cuidados durante o tratamento, além de registrar e notificar eventuais eventos adversos.
“O paciente muitas vezes chega carregando medo ou informações equivocadas. O farmacêutico precisa ser essa referência técnica, acolher sem julgamento e explicar o que ele precisa saber para começar o tratamento”, ressalta Larissa.
Equipe preparada reduz barreiras
A capacitação começa pelo farmacêutico, que precisa conhecer sistema endocanabinoide, farmacologia dos canabinoides e marco regulatório. Mas o preparo deve envolver toda a equipe.
Balconistas e atendentes não podem prestar orientação clínica, mas precisam saber acolher o consumidor e direcioná-lo ao farmacêutico. Protocolos internos ajudam a estabelecer esse fluxo e a evitar abordagens inadequadas.
A comunicação sem estigma e a educação continuada também são competências importantes, especialmente diante da evolução da categoria. “Quando a equipe trata o tema com naturalidade, o paciente se sente mais seguro. É importante que todos saibam como receber esse consumidor e quando direcioná-lo para o farmacêutico”, aponta.
Mais de 55 mil profissionais já prescreveram cannabis. No entanto, menos de 1% dos habilitados realiza prescrições regularmente. A educação médica é uma das frentes para ampliar esse número. “A receita online também pode facilitar o acesso em regiões que anteriormente enfrentavam limitações. A categoria ainda tem muito espaço para avançar, principalmente pela ampliação da formação médica e pelo acesso”, avalia.
Manipulação é próxima fronteira
A ausência de uma RDC própria para cannabis nas farmácias de manipulação é outro ponto de atenção. Segundo Larissa, uma regulamentação permitiria preparar formulações com dosagens específicas para cada paciente.
Hoje, o consumidor depende principalmente das apresentações prontas disponíveis nas farmácias. Uma norma específica poderia criar segurança regulatória para a produção de formulações personalizadas a partir da prescrição médica.
“A manipulação permite preparar um produto com a dosagem específica para cada paciente. Com uma norma própria, o médico poderia prescrever uma formulação personalizada e a farmácia teria segurança para produzir”, conclui.