Prescrição ainda limita expansão da cannabis medicinal
Mercado avança em pacientes e canais de acesso, mas ainda enfrenta gargalo na ativação de prescritores
por Adriana Bruno em
A baixa recorrência de prescrições é hoje um dos principais gargalos para a expansão da cannabis medicinal no Brasil.
O país reúne cerca de 10 mil prescritores recorrentes, considerando farmácias, associações de pacientes e importação, diante de um universo potencial de aproximadamente 1 milhão de médicos e dentistas.
Para o varejo farmacêutico, o cenário mostra que o crescimento da categoria não depende apenas da ampliação do acesso aos produtos. A formação e a ativação de profissionais de saúde também são fatores relevantes para aumentar a demanda e a recorrência das prescrições.
Base de prescritores ainda é restrita
Segundo o Anuário da Cannabis Medicinal da Kaya Mind, a importação registrou média mensal de aproximadamente 3.596 prescritores únicos em 2026.
Quando consideradas todas as frentes de dispensação, incluindo importação, farmácias e associações, a estimativa é de 5.900 a 15.100 profissionais prescrevendo mensalmente no Brasil.
Mesmo entre especialidades com maior relação com a categoria, a penetração ainda é limitada. Na neurologia, a prescrição mensal gira em torno de 10% dos profissionais, podendo alcançar entre 20% e 25% em estados como Rio de Janeiro e Bahia.
“Quando olhamos para prescritores recorrentes, e não apenas para registros mensais, vemos que essa base ainda cresce pouco frente ao potencial do mercado. Esse é um sinal importante uma vez que a expansão sustentável da cannabis medicinal passa necessariamente por qualificação e ativação profissional”, afirma Thiago Dessena Cardoso, diretor de Inteligência e cofundador da Kaya.
Educação entra no radar do canal farma
Entre os fatores que ainda dificultam a prescrição estão dúvidas sobre evidências científicas, regulação, escolha de produtos, dosagem, acompanhamento clínico e segurança.
Para as farmácias, o cenário aumenta a importância da capacitação das equipes. A categoria exige conhecimento sobre os produtos e sobre a jornada do consumidor, além de preparo para orientar o paciente dentro das atribuições profissionais.
“O mercado está crescendo, mas ainda existe uma distância importante entre interesse, acesso e prescrição recorrente. A próxima fase depende de formar profissionais com mais segurança, repertório e ferramentas para atuar na prática clínica”, afirma Maria Eugenia Riscala, CEO e cofundadora da Kaya.
A questão também afeta as estratégias da indústria. Em um mercado regulado e de maior complexidade técnica, o relacionamento com prescritores passa pela oferta de informação, conteúdo e educação, além das ações comerciais.
“O profissional que ainda não prescreve cannabis medicinal geralmente não precisa apenas conhecer uma marca. Ele precisa entender o racional clínico, a regulação, a segurança e a aplicação prática. É aí que a educação se torna uma ponte fundamental para o mercado”, afirma Alisson Goulart, fundador da Lev Academy e diretor de Growth da Kaya.
Para o canal farma, a ampliação da base de prescritores representa uma frente de desenvolvimento da categoria. O avanço passa pela combinação de maior conhecimento dos profissionais de saúde, equipes de farmácia preparadas e acesso aos produtos por diferentes canais.