Brasil já reúne mais de 400 mil farmacêuticos em atividade
Categoria amplia atuação clínica, incorpora tecnologia e ganha espaço em diferentes etapas da jornada de saúde
por Adriana Bruno em
O farmacêutico atravessa uma transformação que amplia sua presença na cadeia de saúde e diversifica as possibilidades de atuação. O movimento envolve a expansão dos serviços clínicos, o avanço da tecnologia e uma aproximação maior com a jornada do paciente.
No dia 25 de setembro, comemora-se o Dia Internacional do Farmacêutico, e o Panorama Farmacêutico conversou, com exclusividade, com importantes representantes do setor.
No Brasil, são mais de 400 mil farmacêuticos em atividade, segundo Walter Jorge João, presidente do Conselho Federal de Farmácia (CFF). “O farmacêutico é essencial à saúde onde quer que atue, porque reúne conhecimentos específicos sobre os medicamentos e o cuidado que são próprios da sua formação e que fazem a diferença na vida das pessoas”, diz.
A mudança também é percebida na rotina das farmácias. Para Jauri Siqueira Junior, farmacêutico e head comercial da Interplayers, a profissão deixou de estar associada exclusivamente ao medicamento e passou a incorporar atividades relacionadas à prevenção, ao acompanhamento e à assistência.
“A profissão farmacêutica viveu uma transformação muito significativa nos últimos anos. Talvez a principal delas tenha sido a consolidação de um movimento que reposicionou o farmacêutico de uma atuação historicamente muito associada ao medicamento para um papel cada vez mais conectado ao cuidado, à prevenção e ao acompanhamento da saúde das pessoas”, pontua.

Mais espaço para a atuação clínica
A ampliação das responsabilidades, porém, exige mudanças na formação e nas condições para o exercício profissional.
Marcelo Polacow Bisson, farmacêutico e ex-presidente do CRF-SP, aponta que a atuação clínica ganhou espaço, mas ainda há distância entre as atribuições previstas e sua aplicação em diferentes serviços. “Um dos principais desafios é a distância entre o que já está previsto nas normas e o que efetivamente acontece nos serviços de saúde. Em muitos locais, o profissional continua sendo subutilizado e concentrado em tarefas administrativas e operacionais, sem tempo, estrutura ou autonomia suficientes para desenvolver plenamente suas atividades clínicas”, avalia.
De acordo com o executivo da Interplayers, outro ponto está na preparação dos profissionais para um modelo de atuação que demanda conhecimentos que vão além da formação tradicional. Gestão, indicadores, produtividade e sustentabilidade passam a integrar esse repertório.
“Não basta saber executar um serviço. É necessário compreender como estruturar uma operação sustentável, acompanhar indicadores, trabalhar produtividade e qualidade, utilizar dados e demonstrar o valor gerado para pacientes e para o sistema de saúde”, destaca.
Tecnologia muda o perfil profissional
A transformação tecnológica aparece entre os fatores que devem influenciar a carreira nos próximos anos. Inteligência artificial, dados, interoperabilidade, dispositivos de monitoramento e modelos híbridos de atendimento tendem a fazer parte de uma rotina cada vez mais conectada.
Jauri avalia que a tecnologia poderá ampliar a capacidade de atuação sem retirar do profissional a responsabilidade pelas decisões clínicas.
“Eu não vejo a IA como substituta do farmacêutico, mas como uma tecnologia capaz de ampliar sua capacidade de atuação”, comenta.
Na avaliação de Pollyanna Tamascia, diretora administrativa da Super Popular e vice-presidente da Farmarcas, a mudança tecnológica também reforça a necessidade de desenvolver competências relacionais. “Um profissional completo precisa unir conhecimento técnico com competências humanas”, diz.
Ainda segundo ela, é fundamental, no caso do farma, ter uma boa formação de farmacologia, medicamentos, legislação e cuidado com saúde. “Além disso, desenvolver comunicação, empatia, capacidade de ouvir, pensamento crítico, tomada de decisão e capacidade de trabalhar em equipe”, ressalta.

Novas competências e oportunidades
O avanço das linhas de cuidado abre possibilidades em áreas como doenças crônicas, vacinação, prevenção, obesidade e acompanhamento farmacoterapêutico. Nesse cenário, a atualização permanente ganha importância para acompanhar novas terapias, ferramentas digitais e modelos assistenciais.
Segundo Bisson, a expansão da atuação depende de uma combinação entre qualificação, integração e capacidade de demonstrar resultados. “O farmacêutico terá cada vez mais oportunidades de participar efetivamente do cuidado, desde que esteja preparado, disponha de condições adequadas de trabalho e consiga mostrar, de maneira concreta, o valor que agrega à saúde individual e coletiva”, comenta.
Pollyanna acrescenta que a transformação não elimina a relevância da presença humana na farmácia. “Quanto mais tecnologia nós tivermos, a gente vai precisar mais do olhar humano, do olhar profissional, dessa capacidade de interpretar informações, orientar e construir essa relação de confiança com o paciente”, complementa.

Valorização profissional
A discussão sobre o futuro da carreira também passa por reconhecimento e remuneração. Dados do Caged apresentados para a profissão apontam média salarial de R$ 4.597,42 por mês, alta de 5,5% em relação a 2025. A faixa indicada vai de R$ 3.674,31 a R$ 6.215,85, com jornada média de 41 horas semanais.
Walter Jorge João defende que a valorização acompanhe as responsabilidades assumidas pelo profissional. “Valorizar o farmacêutico significa respeitar sua autonomia técnica, oferecer condições adequadas de trabalho e remunerar de forma justa os serviços que ele presta”, reforça. Ele diz que a categoria chega à data inserida em um mercado que amplia frentes de atuação, incorpora novas tecnologias e exige atualização constante. “Quem cuida da saúde das pessoas merece ser respeitado, reconhecido e valorizado todos os dias”, finaliza.