Demanda por suplementos cresce 9,1% impulsionada por canetas
Fabricantes reformulam portfólios, ampliam investimentos e aceleram lançamentos para absorver o aumento no consumo
por Adriana Bruno em
O avanço dos medicamentos à base de GLP-1 deixou de influenciar apenas o mercado farmacêutico e passou a acelerar investimentos da indústria. Levantamento divulgado pela Scanntech mostra que o consumo das canetas emagrecedoras – considerando os mercados formal e informal – cresceu 239% no primeiro trimestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano passado. As informações são do Valor Econômico.
A pesquisa, realizada com 2 mil consumidores, estima que 6% da população adulta brasileira já utiliza medicamentos da classe GLP-1. Entre esses usuários, 29% afirmaram ter perdido massa magra, evidenciando uma demanda crescente por suplementos ricos em proteínas, fibras, vitaminas e minerais para minimizar os efeitos da perda acelerada de peso.
“Observamos nas farmácias um crescimento das vendas de seringas de insulina muito superior ao que seria esperado apenas pela evolução do consumo de insulina. Esse excedente nos permite estimar que, possivelmente, mais de 50% das doses de GLP-1 em circulação no país, desde o último trimestre de 2025, estejam sendo consumidas fora do mercado formal em farmácias”, explica Priscila Ariani, diretora de marketing da Scanntech.
Proteínas e fibras lideram a nova demanda
Os reflexos já aparecem nas análises estratificadas. Segundo a Scanntech, os usuários das canetas impulsionaram um crescimento de 9,1% na demanda por suplementos proteicos e de 7,4% nas vendas de vitaminas.
Na avaliação de Aline Goettert, nutricionista e diretora-executiva da Associação Brasileira de Suplementos Alimentares (Brasnutri), “a suplementação deixa de atender prioritariamente o público esportivo e passa a contemplar consumidores que precisam preservar massa muscular, manter o aporte nutricional e cuidar da saúde intestinal durante o tratamento da obesidade”.
Essa transformação já altera o pipeline de inovação das fabricantes. Na Pronutrition, especializada no desenvolvimento de suplementos para terceiros, aproximadamente 40% dos novos projetos recebidos atualmente estão relacionados ao aporte proteico. Entre 2025 e 2026, os pedidos para formulações ricas em fibras cresceram mais de seis vezes.
Fabricantes revisam portfólios e aceleram investimentos
A nova demanda levou a Pronutrition a reformular seu catálogo, sua estratégia comercial e até a comunicação de seus produtos. Dos 45 suplementos atualmente regulamentados pela Anvisa, metade já recebeu o selo GLP-1 Support, criado para facilitar a identificação de soluções voltadas aos pacientes em uso desses medicamentos.
Entre os 40 lançamentos previstos para este ano, 28% serão destinados especificamente a esse segmento. “Com o selo conseguimos educar o mercado sobre quais produtos podem compor o portfólio voltado aos pacientes que utilizam essas terapias”, explica Beatriz Palermo, head de negócios da fabricante.
O reposicionamento acompanha um plano robusto de expansão industrial. Instalada em Valinhos (SP), a Pronutrition projeta crescimento de 20% em 2026 e prepara a inauguração de uma fábrica de 8,5 mil metros quadrados, com capacidade para produzir, em apenas 30 dias, o equivalente a um ano inteiro da unidade atual.
Maxinutri amplia capacidade para acompanhar demanda
Na Maxinutri, os efeitos da expansão dos GLP-1 também já aparecem nos resultados. Segundo Fernando Ferdinandi, fundador e presidente da companhia, as linhas mais consumidas pelos usuários das canetas registraram crescimento superior a 10% no faturamento. A empresa encerrou 2025 com receita de R$ 345 milhões e identifica oportunidades principalmente nas categorias de vitaminas, proteínas e fibras.
“As canetas emagrecedoras, sem dúvidas, mexeram na dinâmica do mercado. A vitamina B12, cujo market share da Maxinutri chega a 45%, teve um aumento gigantesco de vendas”, relata. Entre as apostas da indústria estão a B12 Plus, a B12 em gotas – alternativa para consumidores que evitam cápsulas –, cappuccinos proteicos e gomas enriquecidas com fibras.
Para Ferdinandi, ainda há espaço para uma expansão muito maior. “O mercado brasileiro ainda não despertou para o consumo de fibras, mas esse é um tema extremamente importante e acredito que estará cada vez mais no radar dos consumidores”, afirma.
A companhia também acelera investimentos industriais. Atualmente produz 2,6 milhões de unidades por mês, operando com 100% da capacidade no turno diurno e pouco mais de 50% no período noturno. Com a expansão prevista para dezembro, a capacidade chegará a 4,5 milhões de unidades mensais.
A presença da marca no canal farma reforça esse potencial. A Maxinutri informa estar presente em 83 mil das 94 mil farmácias brasileiras.
Alteração do paladar abre espaço para inovação
As mudanças provocadas pelos GLP-1 vão além da composição nutricional dos suplementos. A Dobro identificou alterações importantes no comportamento dos consumidores, principalmente na percepção de sabores.
Segundo o cofundador Victor Comper, usuários das canetas passaram a rejeitar produtos excessivamente doces em razão da redução do apetite e das alterações de paladar provocadas pelos medicamentos.
Como consequência, sabores tradicionais, como chocolate, baunilha e caramelo, começam a perder espaço para opções mais leves, entre elas maracujá, tangerina, frutas amarelas e frutas vermelhas. “Quem tomava um shake de proteína ou consumia uma barra proteica de chocolate já não está mais conseguindo”, ressalta.
A empresa chegou a cancelar o lançamento de uma creatina sabor chocolate e baunilha para priorizar versões com frutas, além de apostar em embalagens menores, mais adequadas ao novo padrão de consumo. A Dobro faturou R$ 40 milhões em 2025 e projeta alcançar R$ 50 milhões neste ano.[/grifr]
GLP-1 cria nova fronteira para a indústria
Na avaliação da Brasnutri, o avanço dos medicamentos para tratamento da obesidade representa uma transformação estrutural, e não um movimento passageiro.
“Surgem categorias voltadas à manutenção da massa muscular, ingestão adequada de proteínas, saúde intestinal, fibras alimentares, vitaminas, minerais e suporte nutricional durante o processo de perda de peso. É a busca desses benefícios com preservação da saúde”, conclui Aline Goettert.
Farmácias são o principal canal de compra da categoria
O Panorama Farmacêutico publicou uma reportagem exclusiva apontando que as farmácias consolidaram sua posição como principal canal de compra de suplementos alimentares no Brasil. Dados da pesquisa nacional realizada pelo Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC) mostram que 48% dos consumidores adquirem esses produtos no varejo farmacêutico, percentual que supera com ampla vantagem marketplaces e e-commerce (24%), supermercados (15%) e lojas especializadas (8%).
Para Edison Tamascia, presidente da Febrafar, o mercado brasileiro de suplementos alimentares vive um dos momentos mais relevantes de sua história. “O crescente interesse dos consumidores por saúde, bem-estar, longevidade, desempenho físico e qualidade de vida tem ampliado a presença desses produtos na rotina da população e transformado a suplementação em uma categoria cada vez mais estratégica para toda a cadeia da saúde”, diz.
Participação dos canais de compra de suplementos

Consumo de suplementos já faz parte da rotina
Os resultados mostram que o consumo de suplementos já faz parte da rotina dos brasileiros. Entre os entrevistados, 44% afirmam utilizar suplementos diariamente, enquanto outros 21% relatam consumo quase diário. Além disso, 82% pretendem continuar utilizando esses produtos nos próximos seis meses, indicador que reforça o potencial de crescimento sustentável da categoria.
O estudo revela ainda um consumidor experiente. Quase metade (43%) utiliza suplementos entre um e dois anos, enquanto 29% mantêm esse hábito há mais de dois anos. Apenas 15% iniciaram o consumo há menos de seis meses.
Para o varejo farmacêutico, os dados assumem importância ainda maior. “As farmácias e drogarias consolidam-se como o principal canal de compra de suplementos alimentares no Brasil, reforçando seu papel como ponto de acesso à saúde, orientação e cuidado”, finaliza Tamascia.