Envelhecimento populacional muda consumo e favorece empresas, diz estudo
Segundo a EQI Research, farmacêuticas estão entre o grupo mais favorecido
por César Ferro em
Segundo relatório da EQI Research, empresas do setor de saúde tendem a capturar ganhos com o envelhecimento populacional no Brasil. As informações são do Money Times.
“A população mundial está passando por um processo de envelhecimento que trará profundas implicações para diversos setores da economia e para as empresas. No Brasil, essa realidade não é diferente”, afirmam analistas da companhia.
Atualmente, a população brasileira ainda cresce, mas em ritmo baixo, de apenas 0,4% ao ano. Esse cenário deve se intensificar nas próximas duas décadas, com retração prevista a partir de 2044.
Em paralelo, a expectativa de vida já supera os 76 anos e, até 2070, estima-se que mais da metade da população terá mais de 45 anos – atualmente, esse índice é de 34%. “Esse processo tende a provocar mudanças relevantes nos padrões de consumo, uma vez que a composição dos gastos varia conforme a faixa etária”, aponta o relatório da EQI Research.
Envelhecimento populacional deve impulsionar o mercado da saúde
A cadeia da saúde, na visão da casa de análise financeira, deve ser a principal beneficiada pela mudança demográfica. “A demanda por serviços de saúde é extremamente inelástica. À medida que a população envelhece, é esperado que a parcela da renda destinada a cuidados médicos cresça de forma significativa”, analisa.
Dados do Bureau of Labor and Statistics, órgão do governo norte-americano, corroboram essa visão. Segundo a instituição, o gasto médio com saúde salta de 5,5% da renda entre 55 e 64 anos para 14,1% acima dos 75 anos.
O varejo farmacêutico também se destaca. De acordo com a Kaiser Family Foundation, ONG dos EUA que analisa políticas de saúde, 89% das pessoas com 65 anos utilizam algum medicamento, e 54% consomem quatro ou mais simultaneamente, contra 38% e 7%, respectivamente, na faixa de 18 a 29 anos.
Como as farmácias devem se preparar para essa nova realidade?
Em entrevista exclusiva ao Panorama Farmacêutico, o consultor Anderson Ozawa explicou como as farmácias devem se preparar para atender o público 50+. Em sua visão, o primeiro erro é imaginar que basta aumentar o tamanho das letras ou treinar a equipe para falar mais devagar.
“Uma pessoa com pouco mais de 50 anos, economicamente ativa e habituada aos canais digitais, tem necessidades muito diferentes das de um consumidor de 80 anos, que pode usar vários medicamentos, apresentar limitações de mobilidade ou depender do apoio de familiares. Portanto, a idade, por si só, não pode definir a estratégia. A farmácia precisa compreender o perfil real da população que atende”, afirma.
O especialista aponta que a preparação começa pela revisão completa da jornada de compra – da sinalização legível à boa iluminação e a um layout acessível. Nos canais digitais, a mesma lógica deve ser aplicada, com apps intuitivos, entrega programada e possibilidade de compra assistida.
Falta de produto = falta de confiança
Embora a tecnologia pareça ser o maior gargalo nesse relacionamento, o executivo aponta outro fator como principal vilão: a ruptura. Para ele, não encontrar um medicamento de uso contínuo pode significar o fim da relação com o cliente.
“Para quem faz tratamento de pressão alta ou diabetes, por exemplo, encontrar o produto não é apenas uma questão de conveniência – é confiança. Uma ruptura pode representar mais do que a perda de uma venda: pode significar a perda de um cliente recorrente e de toda a sua família”, afirma.
Por isso, a preparação também passa pelo planejamento de estoque, com base no perfil demográfico da região, no histórico de consumo e na capacidade de reposição.
Não medicamentos e atenção farmacêutica também importam
Apesar dos tratamentos contínuos liderarem a jornada dos consumidores 50+, Ozawa também destaca a importância dos não medicamentos e dos serviços farmacêuticos para o setor.
Segundo ele, as categorias mais procuradas incluem dermocosméticos para pele madura, hidratação e fotoproteção; higiene oral e cuidados com próteses; saúde ocular; produtos para incontinência; meias de compressão; suportes ortopédicos; cuidados com os pés; e dispositivos para acompanhamento domiciliar. “Também há espaço para itens ligados ao sono, bem-estar, mobilidade, nutrição e manutenção da massa muscular”, completa.
Sobre a assistência farmacêutica, o consultor destaca que, nessa faixa etária, esses serviços deixam de ser complementares e passam a ocupar uma posição estratégica. “Para as farmácias independentes, essa pode ser uma das principais formas de escapar da competição baseada apenas em preço”, aconselha.
IFEPEC realizou estudo inédito sobre o público
Em maio, o Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC), com o apoio do Instituto Axxus e do NEIT da Unicamp, incorporou um recorte analítico sobre esse público ao estudoComportamento do Consumidor em Farmácias 2026.
Entre os principais pontos levantados pelo estudo estão:
- 72% consomem mais de três medicamentos por dia;
- mais de 97% convivem com dificuldades no manuseio;
- apenas 15,2% sempre buscam apoio do farmacêutico para esclarecer dúvidas