Fim da 6×1 pressiona custos do varejo farmacêutico
Redução gradual da jornada exigirá revisão das escalas, do dimensionamento das equipes e da produtividade, com possíveis reflexos na precificação
por Adriana Bruno em
O fim da escala 6×1 coloca o varejo farmacêutico diante de um desafio operacional e financeiro. Como manter as lojas funcionando sete dias por semana com menos horas de trabalho por colaborador, sem comprometer o atendimento e a rentabilidade?
A mudança exigirá revisão das escalas, do dimensionamento das equipes e dos custos, com possíveis reflexos nos preços de medicamentos e outros produtos. Aprovada em dois turnos pelo Senado Federal em 14 de outubro, a PEC 221/2019 prevê a substituição da escala 6×1 pelo modelo 5×2, com dois dias de descanso remunerado por semana e sem redução salarial.
A transição será gradual, ao longo de 14 meses após a promulgação da emenda constitucional. Nos primeiros 60 dias, as empresas deverão adotar a escala 5×2 e reduzir a jornada máxima semanal de 44 para 42 horas. Depois de mais 12 meses, o limite cairá para 40 horas semanais.
Na prática, a mudança combina mais um dia de descanso com a redução progressiva do tempo máximo de trabalho. Para as farmácias, que precisam garantir atendimento contínuo, inclusive aos fins de semana e durante 24 horas em algumas unidades, o desafio será reorganizar as equipes para cobrir todos os turnos.
A adaptação poderá exigir novas contratações, mudanças na distribuição das jornadas e ganhos de produtividade para conter o aumento das despesas.
Custos adicionais desafiam a operação
Marcelo Cappelletto, diretor comercial da Moavi, avalia que o setor precisará rever tanto o dimensionamento das equipes quanto a distribuição das jornadas.
A redução das horas disponíveis por colaborador pode exigir reforço no quadro de funcionários e mudanças nos processos operacionais. “Dependendo do modelo adotado, isso poderá exigir aumento do quadro, redistribuição das jornadas e revisão dos processos operacionais, com impacto direto nos custos”, projeta.
Paulo Henrique Ribeiro, CEO da Rede Soma, ressalta que a adaptação do varejo é mais complexa do que a de estruturas administrativas. A empresa já reduziu a jornada em seu escritório há cerca de dois anos, mas reconhece as particularidades das lojas, que precisam manter a cobertura do atendimento ao longo de toda a semana. “No varejo, a coisa muda. É bem mais complexo. Vem acompanhado, certamente, de aumento de custo”, pondera.
Para o executivo, a pressão exigirá atenção especial à capacidade financeira das farmácias independentes. “A readequação de preços vai ser necessária, certamente, de acordo com o aumento das despesas, para dar à farmácia condições de sobreviver”, afirma.
Ribeiro também chama a atenção para o peso da remuneração profissional na estrutura de custos. Segundo ele, a combinação das mudanças na jornada com a aprovação do piso nacional do farmacêutico amplia a necessidade de planejamento financeiro e operacional.
O SincofarmaSP afirma que a negociação coletiva continua sendo o principal instrumento para adaptar a nova regra ao varejo farmacêutico e alerta que nenhuma convenção ou acordo, porém, poderá ultrapassar os novos limites constitucionais.
Produtividade será decisiva
A mudança também coloca em evidência a eficiência na utilização das equipes. Cappelletto observa que escalas fixas nem sempre acompanham as oscilações no fluxo de clientes, provocando desequilíbrios entre os horários de menor movimento e os períodos de maior demanda.
“Hoje, muitas operações ainda trabalham com escalas relativamente fixas, que nem sempre acompanham o fluxo de clientes ao longo do dia e da semana”, observa.
A resposta, segundo o diretor comercial da Moavi, passa por cruzar a demanda de cada unidade com a disponibilidade dos profissionais e as restrições trabalhistas. A empresa utiliza inteligência artificial para apoiar a elaboração de escalas e simular diferentes configurações de jornada.
“O primeiro passo é realizar um diagnóstico da operação atual, identificando como as horas de trabalho estão distribuídas e em quais momentos existe excesso ou falta de colaboradores”, recomenda.
A orientação é testar diferentes modelos em grupos de lojas antes de ampliar a implementação.
A estratégia permite avaliar os efeitos sobre os custos e a capacidade de atendimento, além de corrigir falhas durante a transição. “O maior risco não está necessariamente na mudança da legislação, mas em realizar essa transição sem planejamento”, alerta Cappelletto.
Gestão terá de ir além da presença física
A redução das horas trabalhadas também exige rever a maneira como as farmácias organizam processos e medem o desempenho das equipes. Giuseppe Piccoli, fundador da Ponti e Futuro e membro da equipe de Especialistas do Panorama Farmacêutico, defende uma mudança na lógica de gestão.
“A escala 6×1 tornou-se uma zona de conforto perigosa, onde a presença física do colaborador era confundida com eficiência”, afirma. “Quando reduzimos o tempo disponível, somos obrigados a aumentar a qualidade do tempo que resta. É aqui que a produtividade deixa de ser um conceito abstrato e se torna a única solução real para alavancar a lucratividade”, destaca.
O especialista também defende a avaliação de soluções de automação para tarefas operacionais. “O capital humano é valioso demais para ser desperdiçado em tarefas que um robô cumpre com mais eficiência e com custo menor em longo prazo”, argumenta.
Planejamento para proteger as independentes
Na avaliação de Ribeiro, antecipar os efeitos financeiros da nova jornada será determinante para a adaptação das farmácias, especialmente as independentes.
O executivo considera que operações com gestão próxima do negócio podem ter mais facilidade para reorganizar equipes, dimensionar contratações e rever despesas. “A farmácia que se preparar bem, que fizer todos os cálculos e um bom planejamento, vai conseguir passar por isso com sucesso”, diz.
Cappelletto reforça que as características de cada unidade devem orientar as decisões, tanto na distribuição das jornadas quanto no dimensionamento das equipes. “Cada rede, e muitas vezes cada loja, possui características diferentes. Por isso, não existe uma solução única que funcione para todas as operações”, finaliza.