A pesquisa inédita “Consumo de medicamentos”, realizada em julho de 2026 pelo Instituto QualiBest de Pesquisa de Mercado e encomendada pela Abrafarma, aponta que, entre os entrevistados que compram produtos pela internet, os medicamentos aparecem entre as categorias mais relevantes. 48% afirmaram ter comprado medicamentos online nos últimos 12 meses, percentual que coloca a categoria à frente de suplementos, alimentos não perecíveis e produtos para bebês ou crianças.
O levantamento mostra ainda que a compra online está disseminada entre diferentes perfis de consumidores. Segundo a pesquisa, quanto mais jovem o público, maior tende a ser o repertório de categorias adquiridas pela internet e a segurança percebida no canal.
A conveniência é um dos principais motores desse comportamento. 72% apontam a entrega em casa como vantagem da compra online, enquanto 71% citam preços mais baixos e 67%, promoções. Comodidade, economia de tempo e variedade também aparecem entre os atributos valorizados. “A aceitação da compra online de medicamentos está condicionada à existência de regras claras, responsabilização e supervisão profissional, e não apenas à conveniência do canal. Há uma percepção de que medicamentos exigem um nível de controle superior ao de outras categorias vendidas pela internet”, afirma o CEO da Abrafarma, Sérgio Mena Barreto.
Medicamentos já fazem parte do consumo online
Percentual de consumidores que compraram cada categoria pela internet nos últimos 12 meses

Farmácia continua sendo o principal ponto de confiança
Apesar da digitalização, o estudo aponta uma diferença importante entre medicamentos e outras categorias de consumo. Para o consumidor, o medicamento não é percebido como uma mercadoria comum, e a farmácia permanece como referência de segurança.
A pesquisa indica que a confiança está associada à autorização e à fiscalização do estabelecimento, além da percepção de que a farmácia oferece maior controle sobre armazenamento, transporte e procedência dos produtos. Essa lógica se mantém quando a compra migra para o ambiente digital.
Na prática, o estudo resume esse comportamento em uma conclusão relevante para o varejo – o consumidor aceita o digital, mas não abre mão da instituição farmácia.
Marketplace ainda tem participação restrita
Quando analisados os canais de compra, as redes de farmácias aparecem com papel de destaque nas categorias de medicamentos.
O estudo aponta que os marketplaces ainda apresentam participação mais restrita nesse segmento, especialmente quando comparados aos canais próprios do varejo farmacêutico.
A diferença fica ainda mais relevante quando se considera o tipo de medicamento. A farmácia de rede ganha importância tanto na aquisição de produtos sem receita quanto na compra de medicamentos que exigem receita, enquanto a presença dos marketplaces permanece mais limitada.
Para as empresas do setor, o dado reforça a importância de estratégias omnicanal que preservem, no ambiente digital, os atributos associados à loja física: credibilidade, atendimento, variedade e capacidade de orientar o consumidor.
Para Mena Barreto, é extremamente importante preservar as regras sanitárias aplicáveis à dispensação de medicamentos. “A responsabilidade pela venda e pela assistência farmacêutica deve permanecer com farmácias e drogarias regularmente licenciadas, com garantia de orientação profissional, controle de prescrições, rastreabilidade, armazenamento e transporte adequados. Medicamentos não são mercadorias comuns, e nenhum modelo de comercialização pode reduzir as salvaguardas necessárias à proteção da saúde da população”, afirma.
Segurança pesa mais do que conveniência
Se a conveniência impulsiona a compra online, a segurança é o principal ponto de atenção. Entre os compradores pela internet, 69% já tiveram alguma experiência negativa, principalmente relacionada a problemas com produtos e logística.
No caso específico dos medicamentos, a preocupação é ainda mais sensível. 69% apontam o risco de receber um produto falsificado, enquanto 59% demonstram preocupação com medicamentos vencidos ou armazenados inadequadamente. Outros 54% citam a possibilidade de o produto não ter registro na Anvisa.
Também aparecem entre as preocupações a falta de clareza sobre quem seria responsável em caso de problema, a venda sem receita quando ela é necessária e a ausência de orientação de farmacêutico.
Um medicamento armazenado e transportado de forma inadequada pode ser tão preocupante quanto um medicamento falsificado.
Principais riscos na compra online de medicamentos

Consumidor cobra responsabilidade dos marketplaces
A pesquisa mostra que a expansão das vendas digitais vem acompanhada de uma expectativa de maior responsabilidade das plataformas.
85% dos entrevistados concordam que marketplaces devem ser responsabilizados por medicamentos falsificados, sem registro ou sem procedência vendidos em suas plataformas. Outros 82% defendem que a venda de medicamentos pela internet esteja vinculada a uma farmácia autorizada.
A presença do farmacêutico também aparece como fator de confiança: 78% afirmam que a presença desse profissional aumenta a segurança na compra de medicamentos.
O levantamento ainda mostra que 56% teriam dificuldade para saber a quem recorrer caso enfrentassem um problema com um medicamento adquirido em marketplace. Já 52% afirmam que comprar em um marketplace conhecido os faz acreditar que o produto é seguro.
Os dados sugerem, portanto, que o reconhecimento da plataforma, isoladamente, não substitui a confiança construída pela farmácia e pelo profissional de saúde.
Oportunidade para o varejo farmacêutico
A pesquisa sinaliza um cenário em que o avanço do digital não significa necessariamente perda de relevância da loja física. Ao contrário, a credibilidade da farmácia pode funcionar como um ativo estratégico para a expansão das vendas online.
Na escolha de uma farmácia, física ou digital, os atributos mais valorizados estão relacionados à credibilidade e confiança, atendimento, variedade de produtos e marcas, rapidez e promoções. A capacidade de resolver necessidades de saúde e oferecer orientação também aparece entre os fatores avaliados.
Para o varejo, o desafio passa a ser transportar esses atributos para o ambiente digital sem perder os elementos que diferenciam a farmácia de um marketplace generalista. A experiência online, nesse contexto, precisa combinar conveniência e preço com procedência, rastreabilidade, orientação profissional e segurança.
A pesquisa também mostra que a compra online de medicamentos é mais forte entre consumidores de maior renda e apresenta tendência de maior concentração no Sudeste em comparação com Sul e Norte.
Digitalização exige confiança
O avanço do comércio eletrônico amplia o mercado potencial para medicamentos e produtos de saúde, mas também eleva a exigência sobre os agentes envolvidos na cadeia. Para o consumidor, a decisão não se resume ao preço ou à facilidade de receber o produto em casa.
O estudo mostra que a confiança precisa acompanhar o medicamento durante toda a jornada de compra, da escolha do estabelecimento à entrega. Nesse processo, farmácias, redes, marketplaces e plataformas de entrega passam a disputar não apenas a conveniência, mas também a percepção de segurança.
Em um mercado no qual quase metade dos consumidores já comprou medicamentos online, a próxima etapa da transformação digital tende a depender menos da adesão ao canal e mais da capacidade de garantir uma experiência digital compatível com o nível de responsabilidade associado à categoria.
