Panorama Líderes e a inovação como destino
Fundador do Laboratório Cristália, Ogari Pacheco revisita sua trajetória e reforça a aposta em ciência de ponta como motor de transformação
por Leandro Luize em
Estreante da seção Panorama Líderes, Ogari Pacheco iniciou sua história profissional longe dos laboratórios de alta complexidade que hoje caracterizam o Cristália. Nos anos 1950, recém-formado em medicina e sem perspectivas claras, aceitou o convite de um colega para trabalhar em Itapira (SP). Começava ali mais um capítulo de superação do empresário que enfrentou a infância pobre da Vila Sá Barbosa, no centro de São Paulo (SP).
Entre atendimentos em consultório e plantões em hospital psiquiátrico, enxergou oportunidades onde havia escassez, inclusive de médicos disponíveis pela manhã. “De sorte em sorte fui progredindo”, resumiu em uma vídeo-entrevista especial ao Panorama Farmacêutico.
O primeiro passo empresarial veio quase por acaso, ao integrar um grupo que assumiu uma pequena clínica psiquiátrica instalada em um antigo hotel. A busca por eficiência operacional o moveu rumo à decisão improvável de produzir os próprios medicamentos. Sem experiência, mas com disposição para aprender, Pacheco recrutou jovens estudantes e estruturou uma produção artesanal que rapidamente gerou excedente. O desafio, então, deixou de ser produzir e passou a ser vender.
Errar, ajustar e crescer
A expansão do negócio seguiu uma lógica pouco convencional, baseada em tentativa e erro. “Eu errei na dose”, afirma, ao lembrar que produziu mais do que o hospital consumia. A solução veio da própria vivência como propagandista durante a faculdade, o que o ajudou a estruturar uma equipe comercial e acelerar as vendas.
Esse ciclo baseado em produzir, errar, corrigir e escalar marcou o crescimento do Cristália. Com o tempo, a empresa deixou de ser uma operação voltada ao consumo interno para se consolidar como um laboratório reconhecido nacionalmente, com forte investimento em pesquisa e desenvolvimento e domínio de toda a cadeia produtiva farmacêutica.
Polilaminina: aposta bilionária em ciência nacional
A lógica de apostar no que ainda não existe atinge seu ápice no projeto da polilaminina, molécula voltada à regeneração neural e que se tornou um dos principais vetores estratégicos do Cristália. O laboratório investiu cerca de R$ 110 milhões no desenvolvimento da pesquisa conduzida em parceria com a UFRJ, no maior aporte já feito pela companhia em um projeto externo.
A fabricante, inclusive, adquiriu uma fábrica em Jaguariúna (SP) para ampliar a capacidade produtiva e se preparar para uma eventual demanda em escala. Também desenvolveu processos próprios, com pedidos de patente no Brasil e no exterior, reforçando o caráter tecnológico e proprietário da solução.
Internamente, a polilaminina já é tratada como um projeto transformacional. Embora ainda em fase de estudos clínicos e sem geração de receita, o composto vem sendo descrito por Pacheco como o futuro carro-chefe do laboratório. “Não apenas pelo potencial terapêutico, mas pelo impacto científico e reputacional que pode projetar a empresa globalmente”, admite.
Inovação como princípio
Ao longo da entrevista, Pacheco procurou reiterar que a inovação nunca foi acessório no Cristália, mas parte central da estratégia. Em vez de competir em mercados saturados, a companhia optou por desenvolver soluções consideradas negligenciadas ou de maior complexidade científica.
“Inovação real é aquela que melhora efetivamente a qualidade de vida da população, e não apenas ajustes incrementais. Trata-se de uma diretriz que orienta nossas decisões estratégicas”, reforça.
A trajetória do Cristália também foi marcada por momentos de tensão societária e decisões críticas, que, segundo Pacheco, exigiram convicção e resiliência. Hoje, ele atribui parte do sucesso ao engajamento das equipes, que “acreditam no projeto” e sustentam a presença nacional da companhia.
Aos 87 anos, o fundador segue ativo e envolvido na operação, com atenção especial à formação de sucessores e à continuidade da cultura de inovação. Embora evite detalhar os próximos passos, sinaliza mudanças relevantes no perfil do laboratório nos próximos anos, impulsionadas por novas frentes científicas já em desenvolvimento.
Ao olhar para o futuro, mantém uma postura otimista em relação ao papel do Brasil na indústria farmacêutica global. “Mesmo diante de limitações estruturais, o país pode liderar avanços relevantes”, acredita. No fim, a mensagem que deixa para novos empreendedores remete à própria origem. “Disciplina, consistência e compromisso com o propósito. É preciso seguir fazendo bem essas lições de casa todos os dias”, aconselha.