Semavy ganha escala e acirra disputa do GLP-1
Importações da Índia superam projeção de receita da Hypera e sinalizam possível aceleração da oferta do medicamento no Brasil
por Adriana Bruno em
A chegada do Semavy, da Hypera, ao mercado brasileiro de medicamentos para obesidade e diabetes pode estar acontecendo em ritmo mais acelerado do que o previsto. Dados de importação da Índia chamaram a atenção do Morgan Stanley e indicam que a oferta do medicamento pode estar avançando acima das estimativas iniciais do banco.
O Semavy é produzido na Índia pela Sun Pharma, parceira da Hypera, e chega ao Brasil sob marca e registro da farmacêutica brasileira. O Semavy traz um diferencial que é a possibilidade de manter a caneta de em temperatura ambiente por até seis semanas após aberta, sem necessidade de refrigeração. “O estudo clínico em humanos comprova o cuidado da Mantecorp com a qualidade e segurança do medicamento oferecido à população”, comenta Breno Oliveira, CEO da Hypera Pharma.
Segundo o Morgan Stanley, as importações indianas de medicamentos polipeptídicos somaram US$ 13,8 milhões em agosto e setembro, valor equivalente a cerca de duas vezes a receita bruta de GLP-1 projetada pelo banco para a Hypera no terceiro trimestre.
A comparação exige cautela, já que os dados alfandegários não identificam quais medicamentos foram importados e também podem refletir a formação de estoques. Ainda assim, o banco considera o Semavy o candidato mais provável a responder por parte relevante desse movimento, devido à cadeia de suprimentos baseada na Índia e ao lançamento do produto em setembro. As informações são do InfoMoney.
Índia ganha espaço nas importações
O avanço das compras indianas chama atenção justamente em um momento de mudança na composição da oferta de GLP-1 no país. Em setembro, as importações provenientes da Índia cresceram 24% em volume, para 26,8 toneladas, após saltarem de apenas 0,4 tonelada em julho para 21,6 toneladas em agosto. Em valor, o avanço mensal foi de 13%, para US$ 7,3 milhões.
O movimento ocorreu enquanto as importações totais da categoria recuaram. Para o Morgan Stanley, a mudança reforça a possibilidade de uma participação crescente de produtos associados à cadeia indiana no mercado brasileiro.
Se confirmada, uma entrada mais rápida do Semavy pode aumentar a pressão competitiva sobre fabricantes e varejistas, especialmente em um mercado no qual preço e disponibilidade ganharam peso na decisão de compra.
Competição migra para preço e pagamento
Os preços dos GLP-1 ficaram relativamente estáveis em setembro, após quedas mais expressivas observadas anteriormente. O Semavy permaneceu próximo de R$ 325 por caneta, em linha com o Ozivy e consolidando esse patamar como referência para a semaglutida.
O Mounjaro, por sua vez, ficou próximo de R$ 1.329 por caneta. Nesse cenário, as redes começam a utilizar também as condições de pagamento como ferramenta competitiva.
O Morgan Stanley identificou ofertas de parcelamento sem juros, sobretudo para medicamentos de maior valor. Combos de Mounjaro chegaram a R$ 2.250, com redes oferecendo pagamento em até seis vezes. Para o Semavy de 1 mg, combos com três unidades eram anunciados por R$ 999, também com parcelamento.
Oportunidade vai além da caneta
O avanço dos GLP-1 também abre espaço para uma cesta de consumo mais ampla. O Morgan Stanley avalia que a expansão dessa classe pode beneficiar categorias como beleza, cuidados pessoais e nutrição, criando oportunidades de venda cruzada nas farmácias.
A própria Hypera lançou o Semavy associado a um programa de descontos envolvendo mais de 50 produtos do portfólio, além da linha Semavy Nutri, com suplementos de proteínas e fibras.
No varejo, a Panvel já relatou aumento da procura por produtos como colágeno, xampús contra queda de cabelo e tratamentos para fortalecimento dos fios. Dados da Scanntech citados pelo banco mostram ainda crescimento de 8,2% em valor e 5,8% em unidades nas vendas de dermocosméticos nos últimos 12 meses.
Impacto para o mercado
Para a Hypera, a principal questão é se o Semavy conseguirá ganhar escala mais rapidamente que o projetado. O Morgan Stanley mantém recomendação overweight para a companhia, mas ressalta que a confirmação dependerá da conversão das importações em vendas.
Para as farmácias, a entrada de alternativas mais acessíveis amplia o mercado potencial, mas também eleva a competição. Preço, condições de pagamento, disponibilidade e venda de categorias complementares tendem a ganhar relevância na disputa pelo consumidor de GLP-1.