Servier celebra 50 anos no Brasil com aposta na oncologia
Farmacêutica baseada no Rio de Janeiro (RJ) quer reduzir dependência dos medicamentos para hipertensão, que hoje respondem por 70% das vendas
por César Ferro em e atualizado em
A Servier chega a 2026 completando meio século de operação no Brasil, marca celebrada em eventos no Rio de Janeiro (RJ) entre os dias 28 e 30 de setembro. A farmacêutica reuniu suas lideranças globais e locais, além de representantes da classe médica, da sociedade civil e jornalistas. O Panorama Farmacêutico esteve presente.
Sediado desde 2006 no bairro de Jacarepaguá – onde reúne, no mesmo endereço, fábrica, unidade de pesquisa clínica e operações –, o laboratório usou a data para reforçar duas mensagens centrais ao mercado. Uma delas é a solidez de um modelo de governança que preconiza investimentos de longo prazo em inovação. A outra é a ambição de conquistar, agora em oncologia, a relevância que construiu em doenças cardiometabólicas.

Museu Imperial de Petrópolis (RJ) / Foto: César Ferro
Modelo de negócio sustenta visão de longo prazo
Uma exceção no mercado farmacêutico, a companhia é controlada por uma fundação sem fins lucrativos. Essa estrutura, na opinião do diretor geral da operação brasileira, Mathieu Mendil, é o que respalda a visão de longo prazo.
“Sem acionistas ou famílias controladoras a remunerar, a totalidade dos resultados do grupo é redirecionada para financiar pesquisa e desenvolvimento, aquisição de novas moléculas e investimento em startups”, afirma.
Hoje entre as 35 maiores empresas do setor, a Servier emprega mais de 20 mil pessoas globalmente, sendo cerca de 500 no Brasil. A farmacêutica está presente em 130 países, por meio de parcerias com 60 subsidiárias. No último ano fiscal (2024/2025), o grupo faturou € 6,9 bilhões (cerca de R$ 40,8 bilhões) globalmente, com mais de 20% da receita anual de medicamentos de referência reinvestidos em P&D.
O passado e o futuro da Servier
A presença do laboratório em território nacional teve início em 1976, com medicamentos para hipertensão arterial – categoria que, ainda hoje, responde por cerca de 70% das vendas da companhia no país. Mais adiante vieram as terapias para doenças venosas crônicas.
Essas áreas respondem por 43% da receita global da empresa e sustentam um portfólio de 19 produtos no mercado brasileiro, incluindo combinações em pílula única desenhadas para facilitar a rotina do paciente polimedicado.
Porém, a receita de sucesso aplicada nos últimos 50 anos tende a mudar. O segundo e mais recente pilar da Servier é a oncologia. A farmacêutica passou a operar comercialmente nesse segmento no Brasil em 2019, orientada por uma estratégia global de atender necessidades médicas ainda não supridas.
“No último ano fiscal a oncologia já representou 32,2% de nossa receita global, com crescimento de 54,6% nas vendas”, destaca o executivo. No país, essa categoria agrega cinco produtos voltados a tumores hematológicos, gastrointestinais e do sistema nervoso central – com foco em cânceres raros e em populações pediátricas pouco atendidas.
Dois fatos recentes ilustram esse movimento.Em 2024, o laboratório lançou nacionalmente sua primeira terapia-alvo para tumores associados à mutação no gene IDH1, acompanhada do programa IDHentifique, que oferece acesso gratuito a testes para identificação da mutação. Um ano depois, a companhia ampliou esse portfólio com uma nova terapia oral inibidora de IDH1 e IDH2. “Esse avanço foi um marco para a neuro-oncologia, uma área que passou mais de 20 anos sem novidades terapêuticas relevantes”, celebra Mendil.
País consolida-se como polo de pesquisa clínica
A meta de crescer na oncologia é ancorada por um modelo de pesquisa e desenvolvimento descrito como “centrado no paciente”. É o que Cristiane Salles, diretora do Centro Internacional de Pesquisa Clínica (CIRT) da Servier do Brasil, define como medicina translacional. “Você não pode olhar para a pesquisa clínica sem considerar as reais necessidades das populações que serão beneficiadas”, resume.
Para a executiva, essa filosofia torna-se realidade por meio de 177 parcerias com associações de pacientes firmadas no último ano. Com esse trabalho conjunto, a farmacêutica quer revisar todos os seus protocolos de estudos clínicos até 2030, com participação ativa dos pacientes.
Do total de 60 projetos em desenvolvimento no pipeline global do laboratório, 37 já estão em fase clínica. Entre as áreas de destaque estão oncologia, neurologia e uma plataforma de anticorpos conjugados como fronteira de inovação em terapia-alvo.

É nesse contexto que o Brasil ganha protagonismo. Segundo Mendil, o país é um dos poucos do mundo a reunir, em um único polo, capacidades industrial, operacional e de pesquisa clínica. O CIRT do país completou 25 anos em 2026 e já colaborou com cerca de 500 centros hospitalares e clínicos e 1,6 mil pesquisadores, envolvendo mais de 5 mil pacientes em 81 estudos.
“Atualmente, a unidade brasileira participa de dez estudos clínicos, sendo nove em oncologia. Eles estão distribuídos por 42 sites de pesquisa em todo o país”, completa o diretor-geral.
Em cerimônia realizada no Museu do Amanhã na noite de terça-feira, dia 29, a companhia anunciou duas premiações de fomento à pesquisa clínica, sendo uma com foco em oncologia e outra – inédita – que reconhecerá jovens pesquisadores no âmbito da cardiologia.

para incentivar a pesquisa clínica nacional / Foto: César Ferro
Inovação aberta impulsiona pesquisa de novos tratamentos
A inovação aberta é uma das principais responsáveis por garantir a manutenção do ritmo. A farmacêutica mantém um centro de pesquisa na França com 1,2 mil colaboradores e uma incubadora com 110 estações de trabalho dedicadas a startups. Além do polo de inovação de Paris-Saclay, a Servier também dispõe de hubs de pesquisa nos Estados Unidos, na Dinamarca, na Hungria e na China.
Campanha busca conscientizar sobre tipo raro de tumor cerebral
Como extensão dessa filosofia centrada no paciente, a farmacêutica também apresentou a campanha Isso é um glioma. A iniciativa foi construída em parceria com sociedades médicas e associações de pacientes e abrange o movimento fotográfico Pela Nossa Cabeça, voltado a ampliar o conhecimento da população sobre esse tipo raro de tumor cerebral.
O laboratório também apresentou uma pesquisa em parceria com a Oncoguia sobre a jornada de pacientes e familiares ao longo do tratamento, lançando luz sobre os desafios até o diagnóstico.
