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Substituta da ritalina, “pílula da inteligência” traz risco à saúde

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Um medicamento para narcolepsia, doença que causa sono excessivo e incontrolável durante o dia, está sendo oferecido como “pílula da inteligência”. Relatos nas redes sociais feitos por quem vende ou já usou a modafinila sugerem que ela turbina o cérebro, aumentando a memória e a concentração. Mas, não raro, surgem depoimentos de quem se arrependeu de ter usado a substância. A procura crescente pela droga preocupa especialistas da área da saúde.

A modafinila – ou modafinil – também é apontada como substituta do metilfenidato, a popular ritalina – indicada para portadores de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), acabou usada por estudantes por supostamente melhorar o desempenho em provas. A fórmula da nova droga causaria menos efeitos colaterais. Porém, médicos garantem ser balela o resultado prometido e alertam sobre uma série de riscos ao organismo.

“Volta e meia nos deparamos com esses rompantes e comportamentos de manada, em que pessoas saudáveis recorrem a medicamentos, seja porque estão escrevendo uma tese, estudam a madrugada inteira, querem passar em concurso. Essas atitudes sociais são problemas de saúde pública”, diz o professor do Departamento de Saúde Mental da UFMG, Almir Tavares, psiquiatra especialista em medicina do sono.

Depoimentos

Na internet, há relatos de esperança e até de desespero ligados à pílula. Um homem escreveu no Twitter: “acabo de tomar o modafinil. Agora é só esperar o efeito da droga da inteligência”. Já uma mulher, que pretendia melhorar o rendimento nos estudos, compartilhou a conclusão a que chegou. “Já tomei remédio para ficar acordada. É modafinil o nome, mas não vale muito a pena, acho, me deu muito efeito colateral”.

Em uma postagem maior, em um blog, uma jovem deu detalhes da expectativa e, dois anos depois, da frustração com o remédio. “Me senti disposta e motivada como nunca. Não senti um pingo de cansaço. Total absorção do conteúdo, autoconfiança, bom humor”, escreveu. No novo relato, contou que parou de usar a substância. “Na semana em que escrevi aquele texto, tive uma recaída muito forte de depressão. Não queria sair da cama e só pensava em dormir”.

Secretária do Departamento de Psiquiatria Infantil da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Ana Christina Mageste destaca que, ainda que o remédio tenha menor potencial de dependência, traz efeitos colaterais severos. “Essa medicação está sendo usada incorretamente. Na verdade, ajuda apenas a manter o estado de alerta, a se manter acordado”.

Alterações

Por colocar o organismo em um estado de vigília, a modafinila provoca alterações decorrentes da privação de sono. “Uma pessoa acordada durante muito tempo pode ter cansaço extremo, alteração de batimentos cardíacos e de humor. Isso pode levar a um esgotamento físico e psíquico, a um colapso, e é o que nos preocupa”, afirma Ana Christina.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regula a produção de medicamentos no país, reforça que remédios controlados só podem ser vendidos por estabelecimentos farmacêuticos regularizados e mediante retenção de receita. Indústria responsável pela modafinila no Brasil, a Libbs não recomenda o uso para fins diferentes do tratamento da narcolepsia.

Propaganda de suplementos alimentares também é armadilha

Os medicamentos controlados não são os únicos alvos de quem busca uma fórmula para aumentar a inteligência. Os suplementos vitamínicos e minerais também são procurados. Com compostos naturais e ervas como ginkgo biloba e ginseng, produtos com nomes que sugerem melhorar a concentração, como Genius X, Super Focus X e Cerebral Success prometem milagres.

Não à toa, os três suplementos tiveram a produção e a comercialização vetadas pela Anvisa em 2016. Segundo a agência, apresentavam informações irregulares nos rótulos. Alegações terapêuticas e medicamentosas não são permitidas para esse tipo de produto.

Na época, a Anvisa determinou o recolhimento de todas as unidades disponíveis no mercado. No entanto, com uma busca simples na internet é possível achar sites que ainda os comercializam.

Chefe do serviço de neurologia da Santa Casa de Belo Horizonte, Antônio Pereira Gomes Neto reforça que não há qualquer substância que seja capaz de “melhorar a inteligência” de uma pessoa. “A capacidade cognitiva está relacionada a como o cérebro nasceu, se desenvolveu e o que ele acumulou ao longo da vida”, diz.

Fonte: Hoje em Dia

 

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