Tratamento da queda de cabelo movimenta milhões nas farmácias
Enquanto genéricos sustentam mercado atual, novas moléculas são apontadas como “novos GLP-1”
por César Ferro em
Os medicamentos associados ao tratamento da queda de cabelo ampliaram sua participação no varejo farmacêutico. Segundo levantamento do Grupo FarmaBrasil, com base em dados da IQVIA, a categoria movimentou R$ 658,5 milhões em 2025.
O resultado acompanha uma trajetória de crescimento observada desde 2022. De acordo com o estudo, as vendas avançaram 37% em três anos, com alta de 6% em relação a 2024.
Minoxidil lidera entre os medicamentos usados no tratamento da queda de cabelo

“É preciso, porém, considerar que esses medicamentos têm diferentes indicações. Além da queda de cabelo, alguns são usados para tratar psoríase, dermatites e aumento benigno da próstata, por exemplo”, alerta Reginaldo Arcuri, presidente da entidade.
Volume não cresce no mesmo ritmo
Enquanto o faturamento avançou 37% em três anos, o volume comercializado passou de 14,1 milhões para 16,8 milhões de unidades, alta de aproximadamente 19%. No mesmo período, o preço médio por unidade subiu de R$ 34,19 para R$ 39,28.
Embora o minoxidil e a dutasterida tenham maior participação no faturamento, com preços médios de R$ 53,21 e R$ 127,53 por unidade, respectivamente, a liderança em volume é do clobetasol, com 6,43 milhões, seguido pela finasterida, com 4,26 milhões.
Pacientes buscam tratamentos mais acessíveis

Farmacêuticas nacionais são protagonistas
Esse mercado revela-se concentrado e majoritariamente nacional. O Aché lidera em faturamento, com quase 30% do total, seguido por FQM, Allergan, Neo Química e Legrand Pharma.
“O crescimento das vendas desses medicamentos evidencia a presença da indústria farmacêutica nacional nessa categoria. Em 2025, as empresas brasileiras responderam por 81% do faturamento e 91% das embalagens comercializadas”, destaca.
Farmacêuticas nacionais em evidência no Top 10

Tabu ainda afeta tratamento da queda de cabelo
Apesar do crescimento das vendas, o tratamento da queda de cabelo ainda é um assunto pouco debatido abertamente. Em entrevista à CNN Brasil, Rodrigo Brunetti, fundador da plataforma Manual, afirmou que cerca de 17% dos clientes mantêm o tratamento em segredo.
Segundo o executivo, alguns pacientes relatam constrangimento ao comprar presencialmente medicamentos para calvície, especialmente os mais jovens. “Quanto mais velho o homem, mais aberto ele costuma ser. O tabu diminui com a idade”, afirma.
Categoria é a nova aposta do mercado norte-americano
A queda de cabelo de origem hereditária afeta cerca de 50 milhões de homens e 30 milhões de mulheres nos Estados Unidos. Apesar da dimensão desse mercado, o setor não registrou avanços terapêuticos de grande impacto nas últimas décadas. Esse cenário, porém, pode mudar com o desenvolvimento de novas opções de tratamento.
Após o boom dos medicamentos à base de GLP-1, os tratamentos para queda de cabelo começam a atrair maior atenção dos investidores norte-americanos.
Segundo a Bloomberg, as ações da Veradermics Inc. acumularam valorização próxima de 500% entre fevereiro e agosto, em meio às expectativas de novidades terapêuticas. Já a Absci Corp viu seu valor de mercado mais que dobrar no ano.
Wall Street enxerga nesses novos tratamentos uma ‘mina de ouro’ pouco explorada, com milhões de possíveis pacientes e tratamentos com pouca adesão. “Há pessoas que viajam até a Turquia para fazer um transplante capilar. Imagina se fosse possível fazer isso sem precisar de um transplante”, comenta Gil Blum, analista da Needham, instituição americana de serviços financeiros.
Uma das terapias mais avançadas é a clascoterona, da Cosmo. O medicamento atua bloqueando um hormônio causador da queda de cabelo diretamente nos folículos capilares e é definido pela farmacêutica como “a maior oportunidade individual” de seu portfólio. A expectativa é que o pedido de avaliação seja apresentado à FDA no primeiro trimestre de 2027.
A Veradermics, por sua vez, divulgou em julho resultados de um estudo com uma formulação oral de minoxidil voltada a mulheres com cabelos ralos. Caso avance no desenvolvimento clínico e regulatório, o produto poderá se tornar a primeira opção focada no público feminino.
“Obesidade e queda de cabelo são mercados de consumo grandes, e essa é uma das razões pelas quais ambas as categorias podem oferecer um potencial significativo de receita. Se você encontrar um medicamento seguro e eficaz para a queda de cabelo, isso abriria um mercado endereçável significativo”, aponta Geoffrey Hsu, da OrbiMed, gestora global de investimentos no setor de saúde e biotecnologia.