Roche enfrenta pressão do mercado e tenta retomar protagonismo
Analistas questionam consistência do pipeline após reveses clínicos e avanço de rivais em áreas-chave da oncologia
por Gabriel Noronha em
A Roche enfrenta um momento de maior pressão do mercado, com investidores e analistas questionando se a farmacêutica suíça conseguirá recuperar o protagonismo em oncologia após uma sequência de resultados abaixo do esperado em seu pipeline recente. As informações são do Valor Econômico.
A pressão ocorre em um contexto de mudança no eixo de inovação do tratamento do câncer. Nos últimos anos, a companhia perdeu espaço para concorrentes como MSD e AstraZeneca em áreas de crescimento acelerado, como imunoterapia e terapias direcionadas.
Medicamentos como o Keytruda, da MSD, passaram a liderar o mercado global, enquanto rivais avançaram com maior velocidade em novas abordagens terapêuticas.
Para especialistas, o desafio da Roche não está apenas na concorrência, mas na execução. “A empresa teve um papel revolucionário no tratamento do câncer, mas tem encontrado dificuldades para se manter na liderança”, afirma Beat Wittmann, fundador da consultoria Porta Advisors.
Segundo analistas, o ambiente atual exige não apenas inovação científica, mas também maior precisão no desenho de estudos clínicos, um fator que tem pesado nos resultados recentes da companhia.
Parte dessas dúvidas foi alimentada por contratempos em projetos considerados estratégicos. O tiragolumab, que chegou a ser visto como potencial sucessor de terapias líderes de mercado, apresentou desempenho aquém do esperado em estudos avançados. Outros resultados frustrantes em áreas como câncer de mama e Alzheimer também impactaram a percepção sobre a consistência do pipeline.
Roche recalcula rota
Em resposta, a Roche vem promovendo uma reestruturação de sua estratégia de pesquisa e desenvolvimento. A empresa concentrou esforços em áreas terapêuticas prioritárias, adotou critérios mais rigorosos para avanço de projetos e passou a ser mais seletiva em aquisições. A expectativa é aumentar a taxa de sucesso em fases finais de desenvolvimento e melhorar a eficiência dos investimentos.
A companhia sustenta que os ajustes já começam a mostrar efeito. O valor estimado de seu pipeline avançado cresceu nos últimos anos, com mais projetos entrando em estágios decisivos. Entre as apostas, está o giredestrant, voltado ao tratamento de câncer de mama, que pode se tornar um dos principais ativos da farmacêutica caso os resultados clínicos se confirmem.
Além da oncologia, a Roche também busca novas frentes de crescimento. A entrada no mercado de obesidade, com um acordo bilionário com a Zealand Pharma, e o desenvolvimento de tecnologias como a plataforma Brain Shuttle, voltada à entrega de medicamentos no cérebro, refletem a tentativa de diversificação. No entanto, resultados iniciais abaixo do esperado em alguns desses projetos também contribuíram para a cautela do mercado.
Apesar das incertezas de curto prazo, parte dos analistas avalia que a companhia ainda mantém fundamentos sólidos e potencial de recuperação. A combinação entre um pipeline mais robusto, disciplina de custos e ativos consolidados, como a área de diagnósticos, pode sustentar o crescimento no médio prazo.
Ainda assim, no setor farmacêutico, o desempenho costuma depender de poucos ativos decisivos. Na avaliação de investidores, a trajetória da Roche nos próximos anos estará diretamente ligada à capacidade de transformar suas apostas atuais em novos blockbusters e recuperar espaço em um dos mercados mais competitivos da indústria.