O setor mercado farmacêutico brasileiro voltou a registrar um movimento intenso de fusões e aquisições (M&A), com pelo menos quatro operações relevantes em andamento, segundo apuração do Valor com fontes do mercado financeiro.
As transações reforçam o interesse contínuo de investidores estratégicos e fundos pelo setor, impulsionado por perspectivas de crescimento estrutural e resiliência a ciclos econômicos.
Entre os movimentos em destaque está a possível venda da operação brasileira da farmacêutica indiana Lupin, além da busca da União Química por um investidor para aquisição de fatia minoritária.
Também estão no radar do mercado a eventual venda do controle do Teuto e o reforço de posição da Votorantim na Hypera.
Lupin, União Química e Teuto estão no radar de M&A
A farmacêutica indiana Lupin colocou à venda sua operação no Brasil, movimento que vem sendo estruturado há algum tempo, ainda sem conclusão.
Já a União Química, do empresário Fernando de Castro Marques, busca um investidor para uma fatia minoritária, em meio à reorganização societária que envolve a saída de duas sócias da família fundadora.
O laboratório Teuto também voltou ao mercado. A empresa, que já teve a Pfizer como sócia no passado, não descarta a venda de controle e está novamente em processo de busca por investidor, com apoio do Santander.
Segundo fontes do mercado, a empresa pode atrair atenção por sua tradição, relevância no setor e incentivos fiscais da planta de Anápolis (GO), embora esses benefícios tenham prazo para ser reduzidos com a reforma tributária.
Votorantim amplia participação na Hypera
No lado comprador, a Votorantim ampliou sua participação na Hypera, elevando a fatia de 13,2% para 15,8%.
O movimento reforça a estratégia do grupo de manter posição relevante no setor farmacêutico, considerado resiliente.
A Hypera segue como principal referência de mercado para valuation no Brasil, sendo a única farmacêutica nacional listada em bolsa e amplamente utilizada como benchmark de múltiplos.
Cellera Farma muda controle em operação relevante
Outro movimento recente foi a aquisição do controle da Cellera Farma pelo grupo argentino Elea.
O fundador da companhia, Omilton Visconde Jr., permanece com cerca de 10% da empresa. A transação envolveu aproximadamente 90% do capital, embora o valor não tenha sido divulgado.
Fontes de mercado estimam a empresa em cerca de US$ 300 milhões, especialmente após acordo recente com a Sanofi, que elevou seu faturamento para cerca de R$ 1,3 bilhão ao ano.
Medley e EMS elevam referência de valuation no setor
A aquisição dos ativos da Medley pela EMS passou a ser um dos principais parâmetros recentes de valuation no setor farmacêutico.
Segundo fontes do mercado, a operação teria sido avaliada em cerca de 16 vezes o Ebitda, com valor aproximado de R$ 3,6 bilhões (US$ 670 milhões).
O movimento colocou pressão sobre o nível de preços pedidos em outras transações do setor.
A Hypera, por sua vez, segue negociada em torno de oito vezes Ebitda, sendo usada como principal referência comparativa.
Múltiplos elevados nem sempre se concretizam
Apesar da alta nas expectativas de valuation, fontes do mercado afirmam que os múltiplos pedidos pelos vendedores nem sempre são atingidos.
Um exemplo citado é a entrada do fundo soberano de Singapura GIC como sócio minoritário da Cimed.
Segundo interlocutores do setor, a família controladora chegou a buscar múltiplos próximos de 20 vezes Ebitda, mas a operação teria sido fechada em cerca de 11 vezes.
“Ainda assim, os múltiplos seguem elevados. O cheque está maior [no setor]”, afirmou uma fonte do mercado financeiro.
Outra fonte destacou que a operação da Medley não deve ser vista como “régua padrão” para o setor.
“O braço de genéricos da Sanofi tinha marca forte e margem para negociação. Nem todos os ativos têm esse perfil. Ainda assim, o caso puxa o mercado para cima”, disse, sob reserva.
Brasil ganha protagonismo em M&A na América Latina
Levantamento da consultoria Kearney mostra que o setor farmacêutico registrou 14 transações na América Latina recentemente, sendo metade delas no Brasil.
Desde 2016, foram contabilizados 479 negócios na região, com cerca de US$ 13 bilhões movimentados — embora apenas 37% das transações tenham valores divulgados.
O Brasil responde por cerca de 40% desse volume, consolidando posição de liderança regional.
“De forma geral, o ciclo de M&A farmacêutico deve ser lido como uma mudança de expansão ampla para um mercado mais seletivo, recentemente ancorado pelo Brasil”, afirma Vincenzo Sposato, sócio da Kearney e líder de M&A para as Américas.
Tíquete médio cresce e Brasil concentra transações maiores
O levantamento aponta ainda que o tíquete médio das operações no Brasil é significativamente maior do que a média regional.
No país, os negócios giram em torno de US$ 100 milhões (cerca de R$ 500 milhões), enquanto na América Latina a média é de US$ 60 milhões (cerca de R$ 300 milhões).
A participação do Brasil no volume regional também aumentou, passando de 21% em 2019 para 53% em 2025.
Segundo a Kearney, esse avanço não se deve a um “boom” local, mas à retração mais forte de outros mercados da região.
Estratégias de venda e entrada de novos investidores
No caso da Lupin, a busca por comprador segue aberta, com expectativa de interesse de grupos focados em genéricos e biossimilares.
A União Química mantém processo de estruturação de venda parcial com apoio do UBS BB, enquanto avalia a entrada de investidor financeiro ou estratégico.
Já o Teuto, segundo fontes do mercado, tenta reposicionar o ativo após experiências anteriores de parceria com a Pfizer, que não avançaram como esperado.
Hypera segue como ativo estratégico
A presença da Votorantim na Hypera reforça a percepção de que o setor farmacêutico brasileiro é visto como ativo defensivo e estratégico.
O grupo integra o bloco de controle da companhia desde o ano passado, após movimentações societárias que também bloquearam uma tentativa de aquisição hostil pela EMS.
Segundo fontes próximas, a Votorantim pode aumentar sua participação no futuro, mas sem intenção de ultrapassar o controle do principal acionista.
M&A global também acelera em 2025
Levantamento da Bain & Company indica que o mercado global de fusões e aquisições ganhou força em 2025, com aumento de 79% no valor total das transações.
O crescimento foi impulsionado principalmente pela alta de 80% nos múltiplos médios.
O segmento de medicamentos para obesidade, especialmente terapias GLP-1, foi um dos principais motores globais, movimentando cerca de US$ 27,5 bilhões, incluindo licenciamento.
Perspectivas
O setor farmacêutico segue atraente para investidores por três fatores principais: crescimento estrutural da demanda, resiliência a crises econômicas e consolidação de grandes grupos nacionais.
Apesar disso, o mercado ainda observa um descompasso entre expectativas de vendedores e valores efetivamente fechados em algumas transações.
Posicionamento das empresas
Procuradas, Lupin, Votorantim e Cimed não comentaram. A EMS afirmou que não divulga valores de aquisição da Medley. A União Química confirmou o interesse em venda de participação minoritária. O Teuto informou que não comenta especulações de mercado.
