Mounjaro movimenta R$ 13,5 bi em apenas um ano
Caneta da Eli Lilly supera expectativas, coloca Brasil entre os dez maiores mercados da farmacêutica e intensifica disputa bilionária pelo mercado de GLP-1
por Adriana Bruno em e atualizado em
Apenas um ano após o lançamento do Mounjaro nas farmácias, a Eli Lilly contabiliza resultados que superaram todas as projeções iniciais. A tirzepatida movimentou R$ 13,54 bilhões em vendas, alcançou quase 3 milhões de pacientes e consolidou a operação brasileira entre as dez maiores afiliadas globais da companhia.
Os números, divulgados pela EXAME, reforçam a transformação do segmento de terapias para obesidade e diabetes, hoje um dos mais estratégicos para a indústria farmacêutica.
Além de acelerar investimentos e ampliar a produção mundial, o crescimento também intensifica a disputa com a Novo Nordisk, amplia o interesse por novos lançamentos e pressiona o mercado diante da chegada de genéricos da semaglutida.
Demanda supera projeções da Eli Lilly
Quando o Mounjaro chegou ao mercado brasileiro, em maio de 2025, a expectativa da Eli Lilly era disputar espaço em uma categoria já consolidada por Ozempic e Wegovy. O desempenho, porém, surpreendeu até a própria companhia.
“A procura em maio de 2025 foi muito além das expectativas que tínhamos. Por isso, aumentamos nossas projeções para o Brasil”, afirma Felipe Berigo, diretor-executivo da unidade de Cardiometabolismo da Eli Lilly.
Segundo o executivo, o volume de vendas registrado logo nos primeiros meses exigiu uma reorganização global da cadeia de abastecimento. “Em poucos meses, garantimos volumes adicionais para o Brasil e reorganizamos o abastecimento, trabalhando com nossas fábricas operando 24 horas por dia, sete dias por semana”, diz.
Atualmente, segundo a companhia, todas as apresentações do medicamento — de 2,5 mg a 15 mg — encontram-se disponíveis no país.
Brasil ganha protagonismo global
O desempenho comercial transformou a importância da operação brasileira dentro da estratégia mundial da farmacêutica. “A afiliada brasileira já faz parte do top 10 global da Lilly, com expectativa de entrarmos no top 5 mundial nos próximos anos”, disse Berigo.
O crescimento levou a empresa a revisar suas projeções para o país. A expectativa é de que a receita da subsidiária brasileira mais do que dobre em 2026 na comparação com 2025. No ano anterior, o faturamento já havia mais que triplicado frente a 2024.
Embora os resultados locais não sejam divulgados, o desempenho acompanha a expansão global da farmacêutica. A Eli Lilly registrou US$ 19,3 bilhões de receita no quarto trimestre de 2025, alta de 43% sobre igual período do ano anterior. No primeiro trimestre de 2026, o faturamento atingiu US$ 19,8 bilhões, crescimento de 56%, impulsionado principalmente pelos medicamentos para obesidade e diabetes.
O avanço também refletiu no mercado financeiro. Em novembro de 2025, a companhia tornou-se a primeira empresa do setor de saúde a ultrapassar US$ 1 trilhão em valor de mercado, impulsionada pelo crescimento das terapias incretínicas.
Mercado brasileiro acelera expansão
O desempenho do Mounjaro acompanha uma expansão sem precedentes do mercado brasileiro de obesidade.
Segundo dados citados pela reportagem, as canetas emagrecedoras já estão presentes em 4,6% dos lares brasileiros, de acordo com a Nielsen. O segmento movimentou aproximadamente R$ 10 bilhões em 2025 e pode alcançar R$ 50 bilhões até o fim da década.
Berigo afirma que os medicamentos lançados recentemente já representam mais de 90% da receita da subsidiária brasileira. “O primeiro ano de Mounjaro no Brasil já deu uma boa pista sobre o tamanho dessa oportunidade. Mesmo com outras opções de tratamento da classe GLP-1 disponíveis há anos no país, a resposta do mercado foi ainda mais expressiva do que se esperava, sinal de que a necessidade médica não atendida era ainda maior do que se imaginava”, pontua.
Segundo o executivo, o medicamento já impactou quase 3 milhões de pacientes brasileiros.
Concorrência aumenta com chegada dos genéricos
Apesar da liderança da tirzepatida, o ambiente competitivo deve se tornar mais intenso.
A expiração da patente da semaglutida no Brasil abriu espaço para a entrada de medicamentos genéricos e similares. Desde março, a Anvisa aprovou diversos novos produtos baseados no princípio ativo, ampliando a oferta de alternativas no mercado.
Para Luiz Guanais, analista de varejo e consumo do BTG Pactual, a Lilly ainda preserva vantagem tecnológica, mas deverá enfrentar pressão crescente. “A tirzepatida é mais efetiva que a semaglutida. Nesse sentido, ela ainda tem um posicionamento confortável. Mas a empresa já precisa reduzir preços porque há medicamentos menos efetivos, porém muito mais baratos. Além disso, existe um mercado informal relevante, formado por produtos manipulados e medicamentos trazidos ilegalmente do exterior”, avalia.
Segundo estimativas do BTG, a entrada dos novos concorrentes poderá acrescentar R$ 3,6 bilhões ao mercado brasileiro ainda em 2026, elevando o segmento para aproximadamente R$ 15,6 bilhões.
Mercado informal preocupa indústria
Enquanto o mercado formal cresce, a comercialização irregular de medicamentos também avança.
Durante a Operação Heavy Pen, realizada pela Anvisa e Polícia Federal, foram apreendidos 3,5 quilos de tirzepatida em farmácias de manipulação distribuídas por 12 estados. O volume seria suficiente para produzir mais de 1 milhão de canetas injetáveis.
A fiscalização também encontrou substâncias experimentais sem autorização regulatória, entre elas retatrutida e um glucagon ainda em desenvolvimento clínico.
Para Berigo, o problema representa um risco sanitário superior à própria concorrência. “Temos conhecimento de amostras com contaminação, impurezas e até substâncias completamente diferentes do que anunciavam. Esse é o problema de saúde pública que nos preocupa — muito mais do que qualquer disputa de mercado’, destaca.
Inovação sustenta estratégia da Lilly
A farmacêutica afirma que sua estratégia para manter a liderança está baseada na inovação, e não em uma guerra de preços. “Os genéricos que chegam ao mercado serão baseados em semaglutida, uma terapia com ação única sobre o receptor GLP-1. Já o Mounjaro inaugura um novo mecanismo de ação, com ação dupla sobre os receptores GIP e GLP-1. Essa diferenciação científica, e não a ausência de concorrência, é o que sustenta nossa posição de liderança.”
Entre os próximos lançamentos da companhia estão a orforgliprona, atualmente em avaliação regulatória no Brasil, e a retatrutida, considerada uma das principais apostas do pipeline global. “Continuamos priorizando o desenvolvimento de novas soluções para ampliar as opções dentro de indicações aprovadas. É esse pipeline, e não uma guerra de preços, que sustenta nossa capacidade de atender mais pacientes com segurança no longo prazo”, afirma Berigo.
Novo Nordisk acelera investimentos para preservar mercado
A principal concorrente da Eli Lilly também reforça sua estratégia para o segmento.
A Novo Nordisk aposta no desenvolvimento de novas terapias, entre elas CagriSema, Zenaglutide, Icodec, IcoSema e Ziltivekimab, além de destacar que a perda de exclusividade faz parte do ciclo natural dos medicamentos inovadores. “O ponto mais importante é que medicamentos como Ozempic, Wegovy e Rybelsus são resultado de décadas de pesquisa científica e de investimentos significativos”, afirmou a companhia à EXAME.
No Brasil, a farmacêutica anunciou investimento de R$ 6,4 bilhões na ampliação da fábrica de Montes Claros (MG), unidade responsável por aproximadamente 25% da produção global de insulina da empresa e que exporta para mais de 70 países.
Ao mesmo tempo, a empresa aguarda a análise regulatória da versão oral do Wegovy e mantém investimentos em pesquisa clínica no país.
A disputa entre as duas gigantes também chegou ao campo jurídico. Nos Estados Unidos, a Novo Nordisk move ação contra a Eli Lilly por supostas comparações enganosas em campanhas publicitárias envolvendo medicamentos para obesidade. A Lilly nega qualquer irregularidade.