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A indústria farmacêutica ainda é quem manda

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Recentemente, nós descobrimos que a Novartis, empresa farmacêutica suíça, pagou a Michael Cohen, advogado pessoal de Trump, US$ 1,2 milhão pelo que acabou sendo um único encontro. Depois disso, no dia 11 de maio, o Sr. Trump anunciou um “plano” para reduzir os preços dos medicamentos.

Por que as aspas de ressalva? Porque o “plano” era em grande parte desprovido de qualquer substância, controlada ou de outra natureza. (Ok, havia algumas poucas ideias que os especialistas consideraram interessantes, mas elas eram razoavelmente marginais.) Durante a campanha presidencial de 2016, o Sr. Trump prometeu usar a força do governo, inclusive do papel desempenhado pelo Medicare no pagamento de medicamentos com receita, para diminuir os preços de remédios. Mas nada disso estava no discurso dele de sexta-feira (11).

Além disso, se alguém tentar convencer você de que o Sr. Trump está de fato pegando pesado com as empresas de medicamentos, há uma resposta simples: Se estivesse mesmo, o discurso dele não teria feito as ações de farmacêuticas dispararem.

Nada disso deveria parecer surpresa. A esta altura, “Trump Quebra Outra de Suas Promessas Populistas” é basicamente uma manchete Cachorro Morde Homem. Mas há duas perguntas significativas aqui. Primeira, será que o governo dos EUA deveria fazer de fato o que o Sr. Trump disse que ele faria, e não o fez? Em caso afirmativo, por que nós não tomamos uma atitude sobre os preços dos remédios?

A resposta à primeira pergunta é um sim definitivo. A América paga muito mais por remédios do que qualquer outro país grande, e não há um bom motivo para que o façamos. Basicamente, quando se trata de medicamentos, nós somos a última ventosa da grande indústria farmacêutica.

Tenham em mente que a maneira como o setor de remédios funciona não tem e não guarda qualquer semelhança com as narrativas de Economia Primária, baseadas em oferta e demanda e adoradas pelos entusiastas do livre mercado. O que nós temos, em vez disso, é um sistema de patentes em que a empresa que desenvolve um medicamento recebe um monopólio legal temporário sobre as vendas daquele medicamento. Este sistema é ok, ou no mínimo justificável, como uma maneira de recompensar a inovação; porém, nada na lógica do sistema de patentes diz que os proprietários de patentes deveriam ser livres para explorar seus monopólios até o limite.

Existe, de fato, uma razão bastante boa para uma ação do governo que limite os preços dos remédios que as empresas farmacêuticas podem cobrar, assim como há uma razão bastante boa para limitar o monopólio de poder em geral. E o fato de que os contribuintes pagam uma grande parte dos custos dos remédios tanto reforça o argumento a favor de limitar os preços quanto dá ao governo uma tremenda vantagem a ser usada para atingir este objetivo.

Sem dúvida, controles draconianos sobre os preços dos medicamentos poderiam desencorajar inovação. Mas não é disso que se está falando, e além do mais os benefícios de uma intervenção moderada com certeza quase superariam os custos, por uma série de motivos: as empresas farmacêuticas faturariam menos por unidade, mas venderiam mais; elas gastariam menos desenvolvendo drogas que em grande medida duplicam remédios já existentes; e mais. Ah, e a América, com sua disposição única de barganhar sobre os preços dos medicamentos, está basicamente subsidiando o resto do mundo. Não era pro Sr. Trump odiar este tipo de coisa?

Sendo assim, por que nós não estamos fazendo algo a respeito dos preços dos medicamentos?

É verdade que simplesmente conceder ao Medicare o direito de negociar preços por si só não faria muita coisa. Nós também teríamos de dar a ele algum poder de barganha, provavelmente incluindo o direito de se recusar a pagar por remédios quando os preços forem exorbitantes. E antes que vocês denunciem isso como “racionamento”, lembrem-se de que, antes de 2003, o Medicare sequer pagava por remédios.

Ainda assim, dizer “não” pode irritar alguns dos beneficiários do Medicare. Pesquisas mostram um apoio público avassalador (92%!) para permitir que o Medicare negocie preços menores, mas este suporte pode implodir assim que as pessoas entenderem o que uma negociação efetiva exige.

Mas as dúvidas quanto aos detalhes não são o que está impedindo a tomada de ações sobre os preços dos remédios, já que nós sequer chegamos ao ponto de permitir que o Medicare tente reduzir os preços. E o motivo de nós não termos chegado a este ponto é, infelizmente, tão simples quanto grosseiro: a indústria farmacêutica comprou para ela tantos políticos quanto necessários para barrar quaisquer políticas que possam reduzir os lucros dela.

E eu nem estou falando só das contribuições de campanha. Estou falando do enriquecimento pessoal de políticos que servem aos interesses das farmacêuticas.

Afinal, quem preparou a Lei de Modernização do Medicare de 2003, que deixou para os contribuintes a conta dos custos de remédios para idosos, mas proibiu especificamente o Medicare de negociar preços? Ela foi desenvolvida em grande medida pelo deputado Billy Tauzin, republicano de Louisiana, que logo depois deixou o Congresso para se tornar o bastante bem pago presidente da Associação de Pesquisa e Manufatura Farmacêutica, o principal grupo de lobby da indústria. Se isto soa espantosamente brutal, é porque é.

E o Sr. Trump, muito longe de limpar o esgoto, convidou-o para o ramo executivo. Tom Price, seu primeiro secretário de Saúde e de Serviços Humanos, foi forçado a sair por causa de seus extravagantes gastos de viagem, mas seus conflitos de interesse ligados à indústria farmacêutica eram um problema muito maior. Além disso, o sucessor dele, Alex Azar, é…um ex-executivo de empresas de medicamentos, cuja visão declarada sobre os preços de remédios está totalmente em conflito com tudo que o Sr. Trump disse durante a campanha.

A questão é que o Excepcionalismo Americano mais uma vez predominou: Nós ainda somos o único país grande que deixa as empresas de medicamentos cobrarem o que quiserem.

Fonte: Info Exame

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