BNDES deve liberar R$ 2,6 bilhões ao canal farma em 2026
Banco já tem nove projetos do setor no radar para o segundo semestre
por Gabriel Noronha em
O BNDES se consolidou como o principal financiador da expansão industrial e tecnológica do setor farmacêutico brasileiro nos últimos três anos. Segundo João Pieroni, superintendente de desenvolvimento produtivo e inovação do órgão, o banco já aprovou cerca de R$ 6,4 bilhões em operações para a indústria farmacêutica entre 2023 e 2025.
O montante é quatro vezes maior que os R$ 1,4 bilhão liberados nos quatro anos anteriores, entre 2019 e 2022. Somente em 2026, o banco já destinou cerca de R$ 1 bilhão a projetos farmacêuticos e prevê aprovar mais R$ 1,6 bilhão até dezembro, levando o total do ano a R$ 2,6 bilhões.
“O BNDES apoia a indústria farmacêutica de forma sistemática há mais de duas décadas, principalmente depois da Lei dos Genéricos e da criação da Anvisa. Mas foi com a Nova Indústria Brasil, que a gente passou a ter mais instrumentos para apoiar o setor”, afirma Pieroni.

BNDES amplia participação no setor com novo programa
Um dos principais impulsionadores da atuação do banco no canal farma é o programa BNDES Mais Inovação. Voltada a projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação na indústria, a iniciativa oferece apoio às chamadas “plantas pioneiras”, unidades destinadas a segmentos nos quais a produção nacional ainda é incipiente ou inexistente.
“São plantas que o Brasil tem uma capacidade de produção ou muito incipiente ou inexistente mesmo. No caso da saúde, a gente vem priorizando dois tipos. Investimentos em biotecnologia, para biofármacos, e novas plantas de IFAs, de princípios ativos”, explica Pieroni.
Para esses dois segmentos, o banco oferece condições financeiras diferenciadas, com taxas de incentivo superiores às aplicadas a projetos de formulação convencional, como uma nova linha de comprimidos.
A priorização do BNDES também considera a dependência brasileira de insumos importados. De acordo com Pieroni, o país importa entre 85% e 90% do valor consumido em insumos farmacêuticos ativos (IFAs).
Para acessar as linhas de crédito, farmacêuticas com faturamento de até R$ 50 milhões são direcionadas a agentes financeiros credenciados, em operações indiretas. Já empresas com receitas superiores a R$ 80 milhões podem realizar operações diretas com o banco.
O processo inclui cadastro, análises jurídica e de risco de crédito e avaliação do mérito do projeto, com aprovação pelos comitês colegiados do banco. Nas linhas de inovação, os projetos também precisam estar aderentes à Missão 2 (Saúde) da Nova Indústria Brasil e à “matriz de desafios tecnológicos” organizada pelo Ministério da Saúde.
“A indústria farmacêutica atua com capital intensivo e ciclos longos. Construir uma nova fábrica, expandir um centro de distribuição ou estruturar uma área técnica farmacêutica (desenvolvimento analítico, escala-piloto, validação de processos, registro regulatório) exige investimentos que amadurecem em anos e só depois começam a gerar receita. Sem crédito de longo prazo e com custo compatível com o retorno social do setor, boa parte desses projetos simplesmente não sairia do papel”, detalha Alexandro Gandur, CEO da Gandur Partners.
Conheça as farmacêuticas apoiadas pelo BNDES em 2026

Indústrias revelam o destino dos investimentos
Michel Batista, diretor de demanda e marketing da Blanver, afirmou que a farmacêutica pretende utilizar os dois financiamentos do BNDES para lançar cerca de 30 novos medicamentos até 2030, nas áreas de oncologia, doenças renais e sistema nervoso central. Os recursos também serão destinados à construção de uma terceira fábrica em Mairiporã (SP).
Já em Indaiatuba, também no interior paulista, a expansão deve elevar a capacidade de produção de IFAs da CYG Biotech de 96,5 toneladas para cerca de 600 toneladas por ano, com foco em insumos para tratamento contra o HIV. Em Taboão da Serra, a produção de sólidos deve crescer 89,5%, para 712,8 milhões de unidades/ano, com peso maior para antirretrovirais do SUS.
“O financiamento do BNDES é estratégico porque permite à indústria realizar investimentos de longo prazo em capacidade produtiva, modernização tecnológica e produção nacional de insumos e medicamentos. Os projetos contribuem para uma cadeia mais integrada e resiliente, reduzindo a dependência de insumos importados”, afirma Batista.
“Os aportes fortalecem a segurança do abastecimento e ampliam a capacidade de atendimento às demandas do SUS e do mercado privado”, acrescenta.
O Grupo EMS utilizou os recursos para expandir a planta da Novamed em Manaus, ampliando sua área total construída em 30%, e elevar sua capacidade mensal produtiva de 1,7 bilhão de comprimidos para 2,5 bilhões.
“É muito emocionante ver o que construímos aqui em Manaus. Essa fábrica foi pensada há cerca de 12 anos e seguimos investindo para ampliar cada vez mais nossa capacidade. afirmou Carlos Sanchez, presidente do grupo.
“Vivemos agora um novo momento, com a terceira geração da família assumindo responsabilidades na companhia, ajudando a conduzir o crescimento da empresa e a construir os próximos capítulos da nossa história. É motivo de muito orgulho ver essa continuidade”, finalizou o executivo, no evento de inauguração que contou com a presença do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e do presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.
Procuradas pela redação do Panorama Farmacêutico, Teuto, Arese Pharma e Brainfarma (Hypera) não se posicionaram até a publicação da matéria.
Investimentos no canal formam iniciativa do governo
O aumento do crédito ao setor farmacêutico integra a expansão da política industrial do governo. Em junho, o Executivo anunciou um aporte adicional de R$ 140 bilhões ao programa Nova Indústria Brasil, sendo R$ 102,5 bilhões via BNDES e R$ 37,5 bilhões via Finep. Com o novo investimento, o total mobilizado pela iniciativa supera R$ 750 bilhões entre 2023 e 2026.
IFAs, biofármacos e terapias avançadas seguem entre os segmentos prioritários da política, ao lado de fertilizantes, mobilidade sustentável, inteligência artificial e minerais críticos.
Em uma análise mais ampla, que também inclui medicamentos, vacinas, dispositivos médicos e IFAs, o BNDES informou ter aprovado R$ 8,8 bilhões em crédito para o desenvolvimento de novos tratamentos de saúde desde janeiro de 2023, viabilizando mais de 660 pesquisas.
Ao todo, 580 medicamentos e vacinas, 53 dispositivos médicos e 28 IFAs receberam investimentos do banco. O volume de recursos é 91% superior ao registrado no governo anterior, entre 2019 e 2022, quando foram liberados R$ 4,6 bilhões.
“A indústria, no primeiro momento, passou a produzir plantas fabris equivalentes às do mundo, no mesmo nível de compliance. Depois, aprendeu a desenvolver genéricos com rapidez e qualidade. Passou por uma etapa de inovação incremental — pegar dois medicamentos e fazer uma associação — e agora está buscando inovação radical, medicamentos totalmente novos, e biotecnologia”, detalha Pieroni.
“O banco está se esforçando para atuar nesses dois nichos, sempre com um olhar para aquilo que pode atender o sistema público de saúde”, finaliza.