MSF volta a contestar atuação da Gilead no combate ao HIV
ONG amplia pressão por maior acesso global ao lenacapavir
por Gabriel Noronha em
Horas antes da Reunião de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU sobre HIV/AIDS, que começa nesta segunda-feira, 22 de junho, em Nova York, o Instituto Médicos Sem Fronteiras (MSF) lançou uma campanha exigindo que a farmacêutica norte-americana Gilead Sciences amplie o acesso global ao lenacapavir, medicamento utilizado na prevenção da infecção pelo HIV.
Esse, inclusive, não é o primeiro movimento do MSF contra a companhia neste ano. Em março, como noticiado pelo Panorama Farmacêutico, a ONG publicou uma carta aberta à empresa solicitando maior cooperação na comercialização do fármaco.
Na oportunidade, o grupo afirmou que a companhia estaria se recusando a atender diretamente sua demanda, exigindo que o MSF obtivesse suas doses por meio do Fundo Global, que assinou um acordo com a Gilead.
Essa opção, no entanto, inviabiliza a atuação do instituto, pois o fornecimento do fundo é limitado a apenas 18 países, muitas vezes diferentes daqueles em que o MSF atua, devido a restrições impostas pela própria Gilead.
Agora, a ONG demanda também que os governos utilizem todas as ferramentas legais disponíveis para contestar o monopólio da Gilead, de modo que outros fabricantes possam ajudar a ampliar a oferta global e reduzir ainda mais os preços.
Medicamento da Gilead é quase 100% eficaz no combate ao HIV
O lenacapavir, forma de profilaxia pré-exposição (PrEP) administrada apenas duas vezes ao ano, apresenta eficácia próxima de 100% na prevenção da infecção pelo HIV.
Esse índice, de acordo com o MSF, confere ao medicamento um potencial revolucionário na prevenção à infecção, especialmente para grupos em maior risco, como homens gays e outros homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, pessoas que utilizam drogas injetáveis e profissionais do sexo.
“Milhões de pessoas precisam do lenacapavir agora”, afirma o Dr. Tom Ellman, diretor da Unidade Médica da África Austral (SAMU) de MSF. “No período inicial da epidemia de HIV/AIDS, ficamos sem alternativas em lugares como a África do Sul enquanto empresas farmacêuticas vendiam seus antirretrovirais a quem podia pagar mais”, relembra.
“Sabemos como isso terminou: vimos nossos pacientes com HIV morrerem e comunidades inteiras serem devastadas. Não podemos permitir que a história se repita com este medicamento preventivo transformador. A Gilead e os governos precisam fazer mais para ampliar o acesso a esse medicamento em todos os lugares”, acrescenta.
“Os governos precisam intervir se a Gilead continuar colocando o lucro acima da saúde das pessoas”, finaliza o médico.
MSF questiona comprometimento da Gilead com o acesso global
Ainda de acordo com a entidade, os diversos pedidos realizados ao longo dos últimos anos não foram atendidos e a farmacêutica segue se recusando a vender o medicamento ao MSF para uso em seus programas médicos no mundo inteiro, enquanto cobra mais de US$ 28.000 (R$ 144,4 mil) por ano por paciente nos Estados Unidos.
“A Gilead afirma que quer acabar com a epidemia de HIV ‘para todos, em todos os lugares’, mas sua estratégia levanta sérias dúvidas”, disse Melissa Barber, assessora de advocacy em saúde global e políticas públicas de MSF EUA.
“Já é problemático que tenham excluído países com aumento da incidência de HIV, como o Brasil, de se beneficiarem de versões genéricas do lenacapavir. Agora, parece que a Gilead não está disposta a negociar, ao se recusar a nos vender esse medicamento para uso na África Austral, na América Central e em outros lugares. A Gilead precisa fazer mais para garantir que as pessoas tenham acesso às duas injeções necessárias para cobrir um ano inteiro de proteção, por no máximo US$ 40, em todos os lugares”, acrescenta a executiva.