Especialista diz que norma reforça a profissionalização da gestão no varejo farmacêutico
A entrada dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) amplia a responsabilidade das empresas sobre a condução das equipes e coloca a liderança no centro das discussões relacionadas à NR-1.
Para Paulo Costa, CEO da Éden Grupo e Especialista em liderança do Panorama Farmacêutico., a regulamentação não cria uma nova concepção de liderança, mas torna obrigatórias práticas de gestão discutidas há décadas. “O que mudou não foi a essência da boa liderança, mas a urgência de praticar”, diz.
Liderança pode ser desenvolvida
Segundo o especialista, a capacidade de liderar não deve ser tratada como uma característica inata. Estudos realizados ao longo das últimas décadas demonstraram, segundo ele, que liderança é uma competência que pode ser desenvolvida.
“Liderança você aprimora ao longo do tempo. Ou seja, eu posso dizer assim: ‘Paulo, eu não tenho o perfil para ser líder’, mas, se você quiser desenvolver as habilidades de liderança, as habilidades de gestão, você pode”, afirma.
Temas como gestão e liderança envolvem conhecimentos, métodos e processos que podem ser aprimorados de forma consciente. Costa também relatou uma mudança na própria visão sobre o tema, após inicialmente resistir a conceitos como segurança psicológica e linguagem não violenta.
Riscos psicossociais entram no gerenciamento
Costa destacou como uma das principais mudanças a inclusão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos. Segundo ele, a Portaria nº 1.419, de 2024, estabeleceu essa incorporação.
Entre os aspectos relacionados estão o clima organizacional, o ambiente de gestão e o comportamento das lideranças. “Os riscos psicossociais envolvem diretamente o ambiente de gestão, o clima organizacional e o comportamento das lideranças. Esses aspectos passaram a fazer parte formalmente do Programa de Gerenciamento de Riscos”, explica.
Pequenas e médias empresas têm desafio maior
A abrangência da NR-1 também foi destacada pelo especialista. Segundo ele, a obrigação alcança empresas com empregados contratados pelo regime CLT, independentemente do porte. “Pode ser a empresa do MEI até uma grande multinacional. Não importa o porte, não importa o tamanho”, destaca.
Empresas com áreas estruturadas de recursos humanos, departamento pessoal e gestão de pessoas podem ter maior facilidade para implementar os procedimentos.
Já as pequenas e médias empresas, especialmente aquelas com estruturas enxutas, podem enfrentar dificuldades pela falta de conhecimento e de recursos para transformar as exigências em práticas de gestão. “Eu reconheço e vejo que as pequenas e médias empresas vão ter muito mais dificuldade nisso, não porque não têm acesso, mas porque falta conhecimento e falta braço, de fato, para colocar muitas vezes em prática”, alerta.
Para ele, a adequação também representa uma oportunidade de profissionalização da gestão, especialmente no varejo farmacêutico independente.
Protocolos e registros ganham importância
Outro ponto destacado é a necessidade de estabelecer protocolos para situações relacionadas a assédio, violência e outros problemas no ambiente de trabalho. A alegação de desconhecimento sobre ocorrências dentro da empresa não elimina a responsabilidade da organização diante de uma eventual apuração. “A orientação é estruturar procedimentos capazes de antecipar situações, reduzir danos e garantir que as ocorrências sejam tratadas de maneira organizada”, destaca.
Nesse processo, os registros também ganham relevância, permitindo demonstrar os procedimentos adotados diante de situações posteriormente questionadas em auditorias ou audiências.
Suspensão de sanções não elimina obrigações
No último dia 21 de agosto, o plenário do Supremo Tribunal Federal confirmou, por unanimidade, a decisão do ministro André Mendonça que suspendeu, por 90 dias, a aplicação de multas e outras sanções relacionadas às regras da NR-1. O especialista do Panorama Farmacêutico explica que isso não significa que a obrigação de seguir as normas da NR-1 desapareceu. “A NR-1 está valendo. Somente a atividade fiscalizadora é que está suspensa”, ressalta.
Na hipótese de uma denúncia relacionada a elementos abrangidos pela NR-1, a empresa ou farmácia ainda poderá ser submetida à verificação do cumprimento das exigências, segundo a explicação apresentada.
Saúde mental reforça relevância dos riscos psicossociais
Paulo Costa cita o crescimento dos afastamentos relacionados à saúde mental. “Mais de 546 mil brasileiros foram afastados do trabalho por transtornos mentais em 2025”, revela.
Nesse cenário, a liderança aparece como um dos elementos relacionados à construção do ambiente de trabalho.
Para o varejo farmacêutico, a discussão sobre a NR-1 passa, portanto, pela estruturação de práticas de gestão de pessoas, protocolos, registros e desenvolvimento de lideranças.
“A regulamentação não representa uma ruptura com os conceitos já discutidos na gestão, mas torna mais urgente sua aplicação. Para o varejo farmacêutico independente, o desafio é incorporar essas práticas à rotina de gestão e transformar a adequação à NR-1 em parte da profissionalização das empresas”, finaliza.
Marcações: Paulo Costa, Éden Grupo