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Perguntas, respostas e dúvidas sobre a busca por uma vacina contra o coronavírus

Virologista e infectologista falam sobre os projetos que estão sendo desenvolvidos, sobre as etapas para a fabricação de um imunizante e sobre os riscos de acelerar o processo

vacina

O mundo aguarda ansiosamente por uma vacina contra o coronavírus. E é por isso que o mundo procura ansiosamente uma vacina. Estão cadastrados na Organização Mundial da Saúde (OMS) mais de 120 projetos de pesquisa, desenvolvidos em países como China, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Tailândia e Brasil (clique aqui para ler entrevista com o imunologista gaúcho Jorge Kalil, que lidera um estudo em São Paulo).

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Desde o primeiro momento, com a identificação e disponibilização da sequência genética do coronavírus por parte de pesquisadores chineses, parece haver uma predisposição à cooperação internacional na busca por uma vacina.

— Isso é fundamental — comenta Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia e professor da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo. — Primeiro porque pode acelerar a pesquisa, segundo, porque pode fazer com que a propriedade intelectual e a produção dessa ou dessas vacinas seja mais compartilhada entre os países.

Essa corrida, convém lembrar, precisa ser empreendida na velocidade da ciência. Há passos importantes que não podem ser pulados, como aponta o infectologista Eder Gatti, com mestrado e doutorado em saúde coletiva, médico do Instituto de Infectologia Emilio Ribas e da Divisão de Imunização do Estado de São Paulo. Portanto, parece otimista demais pensar em uma solução antes do final do ano.

A convite de GaúchaZH, Spilki e Gatti esclarecem algumas dúvidas e comentam nove pontos sobre a busca por um imunizante contra a covid-19.

1) Os projetos mais avançados
Segundo Fernando Spilki, existem 10 projetos que já estão numa fase de protocolo clínico, já passaram dos testes de animais e agora experimentam em humanos. Uma parceria que parece bastante promissora para o presidente da Sociedade Brasileira de Virologia é a das empresas farmacêuticas Pfizer (EUA) e BioNTech (Alemanha), que usa um material genético conhecido como RNA mensageiro e que pode treinar o sistema imunológico a produzir anticorpos contra o coronavírus.

— Há ainda uma vacina que vem sendo testada por chineses que busca reduzir a capacidade de excreção do vírus, e há também os estudos da americana Moderna. Mas a gente vê todos os resultados com cautela, principalmente os que são releases para o mercado, porque, na verdade, o que se busca é uma capitalização e uma valorização do nome da empresa — pondera Spilki.

O infectologista Eder Gatti é ainda mais cético:

— O que sabemos é o que as empresas falam e a mídia divulga. Publicação científica mesmo, com resultados de estudos, praticamente não tem. Para não dizer que não há, dias atrás saiu um artigo na The Lancet sobre uma vacina chinesa, do Beijing Institute of Technology, com resultados em fase 1, ou seja, com um grupo pequenos de pessoas.

Foram avaliadas a resposta do organismo à vacina (como a produção de anticorpos) e a segurança, se houve algum evento adverso ou não.

— A conclusão do estudo é de que mais estudos precisam ser feitos — salienta Gatti.

2) Os passos a serem seguidos
Para serem aprovadas – e antes de serem submetidas à agência regulatória de cada país (no Brasil, é a Anvisa) –, uma vacina passa por três grandes fases. Na laboratorial, uma das mais demoradas, os pesquisadores precisam definir qual parte daquele micro-organismo, vírus ou bactéria será usado no imunizante. Os cientistas precisam encontrar a parte do vírus que vai provocar a melhor resposta quando em contato com nossas células de defesa.

Feito isso, parte-se para testes em animais como camundongos, coelhos ou macacos. Quando todos os passos anteriores são bem-sucedidos, começa a terceira fase, os testes em humanos, divididos em três etapas. Na primeira, feita com poucas pessoas (de 50 a cem), é testada a segurança da substância. Em paralelo, também se avalia a eficácia da vacina. Aqui, já se pode começar a definir dosagens. A segunda amplia o número de pessoas.

— A terceira é com milhares de pessoas e compara o grupo que foi vacinado com o grupo que recebeu placebo — explica Gatti. — O que algumas empresas estão fazendo é juntar a fase 2 com a fase 3, para ganhar tempo.

3) A expectativa mais realista
De modo geral, leva-se uma década ou mais para se lançar uma vacina, e para algumas doenças, como a aids, que surgiu nos anos 1980, sequer há imunização.

— Foram 50 anos para descobrir a vacina da poliomielite, três décadas para a do rotavírus, 20 a 25 anos para a da dengue — enumera Spilki. — No caso da covid-19, o tempo está sendo abreviado basicamente por causa da urgência. Dada a gravidade com que esse vírus atinge uma parcela dos infectados e a necessidade do distanciamento social como ferramenta de controle, não há muito o que fazer a não ser tentar desenvolver rapidamente uma vacina.

Ainda assim, Spilki e Gatti entendem que não deve surgir uma antes do primeiro semestre de 2021.

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4) Os riscos associados à velocidade
Por mais que haja pressa, deve haver também rigor no desenvolvimento, na testagem, na validação e na produção de uma vacina, defende Eder Gatti.

— Está havendo uma combinação de fatores para o aceleramento: existe uma demanda mundial, o que gera pressão política e, ao mesmo tempo, facilita o financiamento, e o momento epidemiológico é o mais adequado para testar vacina, porque você precisa ter o vírus circulando e ter gente suscetível (a contrair a doença) — aponta o infectologista. — Nessa situação, você pode expor as pessoas à vacina, e elas vão ser invariavelmente expostas ao vírus, então vai dar para saber se a vacina funciona.

Mas Gatti é contra pular qualquer tipo de passo:

— Eventos adversos podem ser muito sérios. A vacina francesa da febre amarela, na primeira metade do século 20, deu muita encefalite, uma inflamação no cérebro. Uma vacina americana de 1998 contra o rotavírus provocou casos de invaginação intestinal, uma obstrução no intestino, principalmente em crianças pequenas.

Fernando Spilki acrescenta uma questão ligada ao tamanho do grupo de teste:

— Se usarmos um grupo muito pequeno de indivíduos, podemos acabar não percebendo danos colaterais.

5) O custo da vacina
Neste momento, Spilki e Gatti afirmam que é impossível de prever.

— Vai depender dos custos de propriedade e do modelo de produção, que é muito variável — diz Spilki. — Nem sempre é tão caro, do ponto de vista imunológico, mas, às vezes, ter de associar algum composto que reforce a imunização encarece o processo. Depende também da manutenção durante toda a cadeia de distribuição. Claro que, em um caso desses, tão importante para a humanidade, a gente espera certa solidariedade das empresas.

6) Imunização planetária?
Como ainda não foi descoberta uma vacina, tampouco se sabe quantas doses serão necessárias, se uma ou duas. Se fôssemos imunizar toda a população, podemos estar falando de 14 bilhões de doses. Mas é o caso de obrigar todo mundo a se vacinar?

— Conhecendo as infecções por outros coronavírus, não só em seres humanos, mas também em animais, provavelmente essa vacina terá de ser aplicada mais de uma vez, por reforço — diz Spilki. — E creio que teremos, sim, de vacinar a grande maioria da humanidade, muito além daqueles 70% de cobertura que costumam ser preconizados, como forma de combater as diferentes ondas do vírus.

Gatti entende que imunizando 70% da população o vírus já pararia de circular e haveria o efeito rebanho. A prioridade seria para profissionais de saúde e pessoas com maior risco de desenvolver formas graves da doença, como idosos, obesos, hipertensos e diabéticos.

7) A produção em massa
Se quase o planeta inteiro precisa ser vacinado, então, a produção da vacina terá de ser em escala planetária. É possível, assegura Spilki, mas um desafio é como encaixar esse enorme volume em plantas fabris que já produzem outros imunizantes igualmente necessários.

— O Serum Institute of India é o maior produtor de vacinas do mundo — diz Eder Gatti. — Produz em grande escala para países em desenvolvimento. É de lá que compramos a tríplice viral e a pentavalente, por exemplo.

E aqui entra um outro capítulo importante nessa história: a distribuição.

8) O nó da distribuição
O país ou os países que primeiro “acertarem a mão” na produção de uma vacina vão privilegiar sua própria população, acreditam Eder Gatti e Fernando Spilki.

— A vacina não vai chegar ao mesmo tempo para todo mundo. Se o Brasil não produzir a sua própria, vai ter de concorrer com o resto do planeta, negociar preço etc — enfatiza Gatti, listando outros desafios nacionais: — Vacinação exige seringa e agulha, que o país não produz. Quem compra a vacina é o Ministério da Saúde, mas, via de regra, são os Estados que adquirem seringa e agulha. Também aí teremos de disputar no mercado internacional. Bom, temos vacina, temos seringa e agulha, mas temos redes de frio suficientes para estocar, distribuir e fazer essa vacina chegar a todas as periferias do Brasil?

9) O melhor remédio até lá
Imprensa Feevale / Divulgação
Fernando Spilki, virologista
Imprensa Feevale / Divulgação
— Até agora, nenhum medicamento, do ponto de vista da virologia, foi uma panaceia — afirma Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia. — Nenhum resolve completamente os problemas, o que é esperado em infecções virais. Normalmente, há outros desafios, como a resposta imune do hospedeiro, as próprias comorbidades. Eu diria que a via da resolução do funcionamento da sociedade não passa por medicamentos, por tratamento. Só a vacina mesmo. Até lá, não temos outra solução que não seja o distanciamento social. E não é o distanciamento social que está destruindo a economia. Não é a decisão de um ou outro ente público ou privado. Quem está destruindo a economia e o funcionamento normal da sociedade é o próprio vírus. Não temos outras ferramentas para lidar com ele no momento, infelizmente. Quando tivermos vacina, aí é outra história.

O infectologista Eder Gatti pondera:

— O melhor remédio é mesmo separar as pessoas, mas a gente vive em um país onde as regiões são muito distintas, mesmo dentro das zonas metropolitanas. É difícil impor uma medida homogênea. Como é que vai ficar em casa um cara que tem um trabalho informal, na rua, ou uma família que mora em um lar com muitas pessoas no mesmo cômodo? Os mais pobres, os mais miseráveis, as microempresas, para esses o governo deveria dar uma ajuda real.

Fonte: GaúchaZH

Veja também: https://panoramafarmaceutico.com.br/2020/05/29/btg-preve-prosperidade-para-o-varejo-farmaceutico-online/

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