Venda de suplementos quintuplica em cinco anos, mas revela gargalos
Grandes redes e plataformas digitais concentram crescimento, enquanto volume de falsificações desafia déficit na Anvisa
por Leandro Luize em
A 5ª edição do Fórum de Suplementos & Bem-Estar, ocorrida no último dia 24 em meio à programação da Arnold South America e com mediação do Panorama Farmacêutico, revelou um mercado cinco vezes maior na comparação com 2022 e agora bilionário. Mas por trás dos grandes números existem gargalos – da desigualdade do crescimento às crescentes dificuldades da Anvisa para enfrentar a onda de falsificações.
Pela primeira vez a venda de suplementos alimentares e esportivos em farmácias superou a marca de R$ 1 bilhão, cenário bem diferente dos R$ 229,2 milhões alcançados há cinco anos. Os dados correspondem aos últimos 12 meses até março de cada ano. Esse segmento perfaz 12,2% do montante obtido pelo setor com produtos de consumer health.
A pandemia fez saltar a demanda por itens para imunidade e bem-estar no varejo farmacêutico. O que parecia ser um boom, porém, se mostrou uma evolução ainda mais sólida nos anos seguintes. “O avanço percentual entre 2026 e 2025 foi de 14%, o menor do período analisado. Mas esse indicador, na prática, reforça que a categoria chegou a um estágio de consolidação”, acredita Filipe Campos, head de Market Insights & CHC da consultoria.
Venda de suplementos em farmácias
(dados dos últimos 12 meses até março de cada ano, em milhões de R$)

Três subcategorias puxam alta
Na análise por subcategorias, três gêneros de produto dominam o faturamento. Creatina, proteínas e barrinhas respondiam por 75% das vendas nos 12 meses até março de 2022. Hoje essa representatividade já é de 92%.
Receita do mercado de suplementos por categoria
(em milhões de R$ e % – 12 meses até mar/2026)

Suplementos nas farmácias têm volume e mix como motores
Até o momento, o perfil do mercado de suplementos nas farmácias contraria por completo a lógica que se impõe na venda de medicamentos e artigos de HPC, fundamentalmente sustentada pelo preço. “Do crescimento geral da categoria, 73% tem como motores o volume e o mix”, reforça Campos. No caso das creatinas e proteínas, o share é ainda mais elevado – 83% e 84%, respectivamente.
Crescimento concentrado
As quantias impressionam, mas estão nas mãos de poucos. As grandes redes movimentam quase R$ 720 milhões em vendas, o equivalente a 59% do total. Há cinco anos a participação era de 48%. E no intervalo de um ano, as plataformas digitais saltaram de 3,7% para 6,1%. Já as farmácias associativistas, apesar de avançarem em valores, viram a representatividade cair de 23% para 18% desde 2022.
Receita do mercado de suplementos por nicho de farmácia
(em milhões de R$ e % – 12 meses até mar/2026)

Especialistas apontam que a explosão na demanda por medicamentos agonistas de GLP-1, basicamente concentrada nos grandes varejistas, vem favorecendo também a inclusão de vitaminas na cesta dos consumidores mais atentos à imunidade e ao bem-estar.
“O varejo farmacêutico detém mais de 91 mil PDVs em todo o território nacional, contra 11 mil lojas especializadas e 244 mil supermercados. Todo mundo vende, mas poucos têm autoridade. E pela proximidade com a população, as farmácias poderiam estar abraçando e rentabilizando essa categoria com muito mais eficiência”, pondera Marcelo Quinn, CEO da varejista de suplementos Quality Nutrition.
Falsificação em alta
Onde há crescimento, há visibilidade. E os suplementos vêm aquecendo também o perigoso e cada vez mais profissional mercado paralelo. Entre setembro de 2024 e março de 2026, os registros da Anvisa contabilizam 5.197 notificações de produtos do gênero suspeitos de falsificação, das quais 931 foram avaliadas e 595 resultaram no cancelamento das vendas.
Os motivos para a suspensão envolvem desde estudos de estabilidade e controles de qualidade inconclusivos, composições irregulares e ausência de documentação. “Os suplementos protagonizam 62,5% dos dossiês de investigação abertos pela agência no período”, declara a diretora Daniela Marreco Cerqueira.
Ao mesmo tempo em que precisa incrementar o poder de fiscalização, a autarquia convive com um déficit estrutural diante da redução de 37% no seu quadro de servidores em 15 anos. Esse cenário torna-se ainda mais crítico com a crescente incursão das plataformas digitais nesse mercado. O Mercado Livre foi o mais recente alvo da Anvisa.
A comercialização de itens irregulares já ocasionou três multas à companhia na semana passada. Somadas, as sanções ultrapassam os R$ 500 mil. De acordo com um levantamento baseado em dossiês de investigação com dados a partir de 2020, mais da metade (51%) das ocorrências relacionadas à venda de produtos irregulares no e-commerce envolveram a varejista.