Ritmo de abertura de farmácias volta a crescer, mas acende alerta
Mais de 2/3 dos estabelecimentos abertos pertencem aos mesmos empresários que lideram estatísticas de fechamento
por César Ferro em
O ritmo de abertura de farmácias no Brasil voltou a crescer. Após despencar quase 40% nos 12 meses anteriores a novembro de 2025, o indicador teve ligeira recuperação no comparativo da Close-Up International, que considera os últimos 12 meses até março de 2026.
No estudo anterior, 6.752 unidades haviam iniciado operações. Agora, o total chega a 8.331 estabelecimentos, o que representa um ganho de 23,3% no período.
Ritmo de abertura de farmácias volta a crescer
(Novas drogarias MAT 11/25 x MAT 3/26)

As independentes foram o principal motor desse avanço, com a abertura de 5.546 lojas no período. Na sequência aparecem as associativistas (1.738) e as grandes redes (771).
Quem mais abriu lojas?
(Participação no montante de novas drogarias abertas no MAT 3/26)

Os dados indicam um mercado em reaquecimento, mas nem todas as notícias são positivas. Segundo especialistas consultados pelo Panorama Farmacêutico, o cenário ainda é preocupante, visto que a liderança em PDVs inaugurados pertencem aos mesmos empresários que encabeçam as estatísticas de fechamentos.
O que pensam os especialistas sobre a taxa de abertura de farmácias
Paulo Costa pede atenção ao que os números não dizem
Para Paulo Costa, CEO da Éden Grupo Brasil e especialista em liderança no portal, os dados revelam um paradoxo. O setor é um dos mais atrativos do varejo, mas o crescimento não se distribui de maneira uniforme.
Segundo ele, o mercado farmacêutico cresceu 11,2% nos 12 meses até março de 2026, de acordo com a IQVIA. O percentual supera com folga outros segmentos do varejo, o que ajuda a explicar o interesse de novos empreendedores no canal.
“O problema está no que os dados não mostram à primeira vista. As grandes redes cresceram 15,9% e as associativistas, 12,5%. Já no caso das independentes, o percentual foi de apenas 1,9%, abaixo da inflação”, destaca.
O que explica esse desempenho?
O executivo afirma que o tamanho do mix é um dos principais fatores por trás desse desempenho. Enquanto uma pequena farmácia tem, em média, 1.366 SKUs, as redes chegam a trabalhar com mais de 10 mil itens.
“Essa diferença não envolve somente uma questão de escala. É, antes de tudo, um reflexo de gestão. Um mix mais amplo resulta de uma operação profissionalizada, com compras estruturadas, precificação consistente, atendimento treinado e capital investido no negócio”, afirma.
Com um portfólio menos completo, esses estabelecimentos não concorrem em categorias estratégicas, o que limita seu crescimento aos produtos ‘que todo mundo tem’.
Presença digital é outro fator importante
A utilização de canais digitais também é um fator relevante. Essa via já representa 13,8% do varejo farmacêutico e cresce 58,2% nos últimos dois anos. Enquanto grandes players como RD Saúde, Panvel e Pague Menos nadam de braçada, muitos gestores independentes ainda têm uma atuação quase totalmente analógica.
“O resultado desse desequilíbrio é visível: [/grifar]85,6% dos fechamentos estão concentrados nas farmácias independentes, que representam 51,3% das lojas ativas.[/grifar] O mercado, sim, oferece oportunidades – crescentes, inclusive. A questão é para quem”, conclui.
Para o consultor de educação corporativa Gilson Coelho, que também integra a rede de especialistas do portal, o ritmo de novas farmácias reafirma a vivacidade do empreendedorismo farmacêutico e sua conexão com as características regionais e demográficas do país. “Os problemas, entretanto, começam na gestão de fatores como margem, execução e sustentabilidade operacional”, adverte.