Prescrição de cannabis ainda se concentra no setor privado
Pesquisa mostra peso da capacitação e forte presença de produtos importados e associações no acesso à cannabis
por Adriana Bruno em
A capacitação profissional aparece como o principal fator associado à prescrição de produtos derivados de cannabis entre os médicos participantes de uma pesquisa nacional.
Conduzido por pesquisadores da USP e da UFF, um levantamento publicado na na revista científica Pharmacoepidemiology avaliou perfil dos prescritores, origem dos produtos, composições utilizadas, indicações clínicas, faixas etárias e canais de acesso.
Capacitação é principal diferencial
Dos 333 médicos, 305 (91,6%) declararam prescrever cannabis, enquanto 28 (8,4%) não prescreviam.
Entre os prescritores, 76,1% afirmaram ter recebido capacitação específica. Já entre os não prescritores, apenas um profissional declarou possuir formação na área. Na análise ajustada, a capacitação apresentou a associação mais forte com a prescrição, com razão de chances de 100,73 e p inferior a 0,001.
O intervalo de confiança, de 12,77 a 794,72, é amplo e indica incerteza sobre a magnitude dessa associação. Portanto, o estudo demonstra uma relação estatística, mas não comprova que a capacitação isoladamente leve o médico a prescrever.
Entre os 28 não prescritores, 46,5% apontaram falta de conhecimento ou formação específica como principal barreira. Outros 25% citaram a ausência da terapia em sua especialidade; 14,3%, perfil dos pacientes ou inviabilidade econômica; e 7,1%, falta de evidências científicas ou respaldo jurídico.
Atendimento privado concentra prática
O consultório particular era o principal ambiente de atuação de 67,9% dos prescritores. Na análise ajustada, médicos com atuação predominante no setor público apresentaram razão de chances de 0,23 para prescrição, enquanto profissionais vinculados principalmente a planos de saúde registraram 0,17, em comparação com a prática privada.
Dentro da amostra, os índices correspondem a uma redução estimada de 77% e 83% nas chances de prescrição, respectivamente.
Para o mercado, a concentração na prática privada sinaliza um espaço já desenvolvido nesse canal e, ao mesmo tempo, potencial de expansão para saúde suplementar e sistema público.
O CEO da Kaya Mind, Thiago Cardoso, conta que o Brasil ultrapassou pela primeira vez a marca de 1 milhão de pacientes em tratamento com cannabis medicinal. “Atualmente são aproximadamente 1,002 milhão de pacientes utilizando esse tipo de tratamento”, afirma.
Apesar do avanço, o executivo lembra que o potencial ainda é muito superior. “Segundo estudo da Kaya Mind, o Brasil possui potencial para alcançar cerca de 6,9 milhões de pacientes utilizando medicamentos à base de cannabis.”
Cardoso também destacou o impacto das mudanças regulatórias promovidas pela Anvisa no início do ano. “Observamos um crescimento muito expressivo no interesse de empresas, investidores e pacientes”, comenta.
Importados têm forte presença
Entre os 305 prescritores, 35,4% mencionaram produtos importados, 14,8% citaram produtos nacionais e 40,7% relataram produtos fornecidos por associações.
Quando consideradas as marcas comerciais mencionadas, 75,8% eram importadas e 24,2% nacionais. Foram identificadas 44 marcas estrangeiras e oito nacionais.
CBD lidera entre as composições (h2)
Os transtornos mentais e comportamentais responderam por 37,4% das indicações, seguidos por doenças do sistema nervoso, com 31,4%, e sintomas e sinais clínicos gerais, incluindo dor crônica ou inespecífica, com 16,1%.
Entre as composições, CBD foi citado em 23,6% das respostas; CBD combinado com THC, em 19%; e THC, em 16,7%. Óleos e extratos foram as formas mais mencionadas.
Um ponto de atenção está na baixa padronização das informações: apenas 11,8% dos prescritores relacionaram claramente composição e indicação clínica. O estudo não apresenta protocolos de dose, titulação, duração do tratamento ou desfechos clínicos. Por isso, a frequência das indicações não deve ser interpretada como comprovação de eficácia.
Idosos são público mais citado
Pacientes com 60 anos ou mais foram mencionados por 83,6% dos prescritores, seguidos pelas faixas de 50 a 59 anos (82%) e 40 a 49 anos (81%). Como era possível selecionar mais de uma faixa, os percentuais não representam a participação de cada grupo no mercado.
Além disso, 66,9% dos médicos relataram observar efeitos terapêuticos em até 30 dias.