Semaglutida genérica amplia disputa por canetas no Brasil
Concorrência pressiona preços e margens de fabricantes e farmácias
por Gabriel Noronha em
O fim da patente da semaglutida abriu espaço para novos concorrentes de Ozempic e Wegovy no Brasil. Em outubro de 2026, EMS e Hypera já comercializavam versões sintéticas do princípio ativo, enquanto outras farmacêuticas aguardavam o lançamento de produtos aprovados pela Anvisa. As informações são da Exame.
A patente expirou em 20 de março, após decisão do STJ que negou a prorrogação da exclusividade da Novo. Desde então, a Anvisa autorizou versões sintéticas, um genérico e medicamentos similares. A entrada nas farmácias, porém, ocorre em ritmo mais lento do que a concessão dos registros.
EMS e Hypera iniciam vendas de semaglutida sintética
O Ozivy, da EMS, foi a primeira versão sintética aprovada, em maio, e chegou ao mercado em junho. No mês seguinte, a autarquia concedeu registros para cinco produtos — Owozy, da Ávita Care; Seemasun, da Sun Farmacêutica; Zempneo, da Brainfarma; Semavy, da Cosmed, ligada à Hypera; e Orsema, da Ranbaxy.
Em agosto, a agência aprovou o primeiro genérico de semaglutida sintética, da EMS, e o similar Semaclique, da Germed. No levantamento publicado pela EXAME em outubro, apenas Ozivy e Semavy estavam disponíveis nas farmácias entre as novas versões sintéticas.
A Eurofarma, que chegou a preparar um pedido para produzir sua própria versão, transferiu o processo regulatório à Ávita Care e firmou acordo com a Novo para distribuir as marcas Poviztra e Extensior, versões de semaglutida biológica.
Os novos registros citados foram concedidos para o tratamento de adultos com diabetes tipo 2 insuficientemente controlado. A aprovação para essa indicação não autoriza automaticamente o uso dos produtos no tratamento da obesidade.
Concorrência reduz preços das canetas
O Ozivy chegou ao mercado com preços anunciados entre R$ 452 e R$ 498 por caneta. Em julho, a EMS passou a oferecer três unidades de 1 mg por R$ 999 em seu programa comercial, equivalente a R$ 333 por caneta.
O Semavy, lançado em setembro, adotou estratégia semelhante. Na compra de três unidades, o preço divulgado era de R$ 999, também equivalente a R$ 333 por caneta.
Em outubro, Ozempic e Wegovy apresentavam preços próximos de R$ 999 em determinadas versões. Já o Mounjaro, da Eli Lilly, custava entre R$ 1.422 e R$ 3.499, conforme a apresentação.
Os valores variam de acordo com a dosagem, a farmácia e as condições comerciais. A entrada de novos fabricantes tende a ampliar a concorrência, mas o efeito sobre os preços dependerá da disponibilidade dos produtos e da estratégia comercial de cada empresa.
Novo e Lilly disputam participação
A Novo busca preservar espaço no mercado com suas marcas originais e novas opções comerciais. Além do acordo com a Eurofarma para distribuir Poviztra e Extensior, a companhia retomou, em setembro, o NovoCare Farmácia, plataforma digital integrada a farmácias parceiras.
A Eli Lilly disputa o mesmo mercado de tratamentos para diabetes e obesidade com o Mounjaro, à base de tirzepatida, outro princípio ativo da classe dos agonistas de GLP-1. O medicamento mantém proteção patentária até 2036, segundo as informações do levantamento.
Em um ano no Brasil, o Mounjaro somou R$ 13,54 bilhões em vendas. Em junho, a Lilly também reduziu em 35% o preço de um combo com duas caixas.
Farmácias enfrentam pressão sobre as margens
A ampliação da concorrência pode aumentar o volume de canetas vendidas, mas também reduzir a rentabilidade por unidade. Em julho, o Itaú BBA cortou de R$ 27 para R$ 20 o preço-alvo das ações da RD Saúde, citando a concorrência de produtos mais baratos e o avanço do mercado informal. Segundo o banco, o lucro bruto por caneta havia recuado para cerca de 20%.
Em outubro, a XP apontou que, em agosto, a receita de sua cesta de medicamentos usada como referência para o Mounjaro caiu 6% em relação a julho, enquanto o volume vendido cresceu 1%. O resultado indica redução do preço médio dos produtos analisados.
Governo avalia semaglutida no SUS
Em setembro, o Ministério da Saúde protocolou um pedido para que a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) avalie a inclusão de medicamentos à base de semaglutida ou liraglutida na rede pública.
O ministro Alexandre Padilha estimou custo anual de R$ 1,5 bilhão e afirmou que compras em larga escala, combinadas à produção nacional, poderiam reduzir os preços em até 80% a 90%. Os números são estimativas do governo, e a eventual incorporação ainda depende de avaliação técnica e orçamentária.
Em 2025, a Conitec havia rejeitado a inclusão da semaglutida para determinados pacientes com obesidade e doença cardiovascular estabelecida, sem diabetes. Até a conclusão de um novo processo, esses medicamentos não integram a oferta regular do SUS.
A disputa no mercado brasileiro deve avançar conforme os fabricantes concluam os lançamentos e definam preços para os produtos já aprovados. Para a indústria e o varejo farmacêutico, o desafio será ampliar as vendas em um segmento no qual a concorrência pode pressionar as margens.