Variação de preços das canetas nas farmácias chega a R$ 3,3 mil
Levantamento mostra que o maior preço registrado foi de R$ 4.006,82
por Adriana Bruno em
Uma pesquisa revelou variação de até R$ 3 357,32 no preço das chamadas canetas emagrecedoras. Os dados são da consultoria InforPrice e levam conta o período entre março e maio de 2026. O estudo mapeou mais de 6,2 milhões de capturas de preços em 13.392 pontos de venda e mostra que o trio Ozempic, Wegovy e Mounjaro forma o rol de medicamentos de maior valor unitário comercializado pelo varejo farmacêutico.
Em entrevista exclusiva ao Panorama Farmacêutico, Gustavo Presa, gerente de Professional Services da InforPrice, avalia que um mercado projetado em R$ 20 bilhões em 2026, presente em cerca de 924 redes varejistas, deixou de ser um nicho.
“O GLP-1 virou uma categoria estrutural. E os efeitos não se limitam ao preço, já que reorganizam mix, negociação com fornecedores e até o layout de gôndola”, analisa. Segundo ele, a chegada de laboratórios como a Hypera representa mais do que uma ampliação de portfólio. “É a confirmação de que a comoditização da semaglutida saiu do campo das projeções. Quando um grande player nacional entra com uma caneta própria, traz condições comerciais mais agressivas do que as praticadas pelas farmacêuticas inovadoras, alterando de forma concreta a equação de rentabilidade do varejo”, contextualiza.
Métricas de preço considerando todas as marcas e dosagens

Mounjaro lidera ranking de preços
O ranking de preço médio por produto confirma a predominância do Mounjaro nas faixas mais elevadas. As quatro dosagens mais caras do levantamento, de 30, 25, 20 e 15 mg, pertencem à linha de tirzepatida.
O Wegovy 2,4 mg aparece como o produto à base de semaglutida com maior preço médio. Já as apresentações de Ozempic e as dosagens iniciais de Wegovy ocupam as últimas posições, com preços abaixo de R$ 1.500. “Os sinais já estão nos dados. O Mounjaro 2,5 mg saiu de R$ 1.706 em março, subiu para R$ 1.800 em abril e recuou para R$ 1.722 em maio, tudo isso em menos de 90 dias”, destaca Presa. Outro dado chama atenção. O custo do Mounjaro 25 mg atingiu um teto de R$ 4.006,82.
Presa diz que genéricos e similares nacionais historicamente oferecem spreads maiores para o varejo do que as marcas inovadoras, que costumam trabalhar com margens mais comprimidas em categorias de alto tíquete. “O que parece contraditório, mas faz todo sentido na prática, é que o preço no balcão tende a cair enquanto a margem da farmácia pode subir”, comenta.
Relacionamento com o paciente será decisivo
Presa afirma que o consumidor de GLP-1 atualmente apresenta alta renda, baixa sensibilidade a preço e elevado engajamento com o tratamento. Para ele, esse perfil continuará existindo, mas deverá migrar gradualmente para novas moléculas protegidas por patente, como os agonistas duplos.
“O que muda é o volume. Uma parcela significativa de pessoas que hoje não acessa o tratamento por questões financeiras passará a entrar na categoria por meio dos similares, com comportamento de compra mais comparativo e maior sensibilidade a preço”, ressalta.
Nesse cenário, ele acredita que a farmácia vencedora não será necessariamente a que praticar o menor preço. “A vantagem estará com quem souber conduzir melhor a conversa no balcão. Conversão para similares, venda complementar e fidelização do paciente em tratamento contínuo serão fatores fundamentais. GLP-1 é uma categoria de alta recorrência, e quem construir esse relacionamento agora colherá resultados ao longo de toda a jornada terapêutica”, prevê.
Aplicativos registram os maiores preços
O comparativo por canal de venda mostra que os aplicativos de entrega registram, de forma consistente, os preços mais elevados para praticamente todos os 13 SKUs monitorados.
De acordo com a InforPrice, as notas fiscais eletrônicas tendem a apresentar os menores valores, especialmente nas dosagens mais altas do Mounjaro, em que a diferença entre canais pode superar R$ 1.000 por unidade. Já os pontos de venda físicos e os aplicativos ou sites próprios das redes apresentam preços intermediários e relativamente próximos entre si.
“Estamos vendo o mercado testar limites de preço, monitorar concorrentes e realizar ajustes constantes. A tendência é que esse comportamento se intensifique à medida que a entrada dos similares pressione o piso de preços da categoria”, conclui.