Cada R$ 1 em canetas GLP-1 gera R$ 8,14 em vendas adicionais
Medicamentos já representam R$ 134 milhões mensais em faturamento na Pague Menos
por Adriana Bruno em
As canetas emagrecedoras vêm ganhando relevância não apenas pelo faturamento direto gerado às farmácias, mas também pelo potencial de ampliar a cesta de compras. Segundo Jonas Marques, CEO da Pague Menos, a cada R$ 1 gasto pelos clientes com medicamentos agonistas do receptor GLP-1, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy, outros R$ 8,14 são destinados a produtos adicionais, em um movimento de cross-selling. As informações são da Folha de S. Paulo.
“Pacientes de canetas, por exemplo, compram junto o Glifage, um produto para o controle da glicemia em diabéticos tipo 2, e o Nugenix, que é um suplemento de óxido nítrico”, afirmou Marques durante painel da 27ª Conferência Anual do Santander, realizada na segunda-feira (17).
A composição da cesta também inclui alimentos. “Um dos produtos mais comprados no mesmo tíquete do Mounjaro, desde o início, é sorvete de 2 litros. Todos nós somos humanos, sabemos, é autoindulgência”, disse o executivo.
Medicamentos já somam R$ 134 milhões por mês
O impacto dos medicamentos GLP-1 também aparece diretamente no faturamento da rede. De acordo com o CEO, as vendas de canetas já movimentam R$ 134 milhões por mês na Pague Menos, o equivalente a 10% do faturamento da companhia.
Apesar da dimensão da oportunidade comercial, a categoria também exige uma estrutura operacional compatível com as características dos produtos. Entre os investimentos necessários estão equipamentos como câmaras frias para garantir as condições adequadas de conservação.
“O primeiro pedido que fizemos para colocar o Wegovy nas farmácias custou R$ 70 milhões e o prazo para pagamento é de 20 dias. Então, é preciso ter um capital de giro gigante”, afirmou Marques.
Estoque elevado aumenta exposição a perdas
Além da necessidade de capital de giro, o executivo destacou o impacto dos roubos sobre a operação. Segundo ele, cada farmácia mantém aproximadamente R$ 100 mil em estoque desses produtos, valor que pode ser perdido em ocorrências de furto e roubo.
A combinação entre alto giro, tíquete adicional e necessidade de infraestrutura coloca os medicamentos GLP-1 em uma posição estratégica para o varejo farmacêutico, ao mesmo tempo em que exige atenção à gestão de estoque, capital de giro, armazenamento e segurança.
CEO critica venda de medicamentos em marketplaces
Marques também se posicionou de forma crítica em relação à possibilidade de medicamentos serem comercializados por marketplaces e plataformas de comércio eletrônico. “Seria uma irresponsabilidade sanitária”, afirmou.
Na avaliação do executivo, as farmácias desempenham um papel relevante na cadeia de distribuição desses produtos, incluindo a validação necessária para a revenda, a certificação do medicamento e a garantia de procedência.
A discussão ganhou força após a Anvisa abrir caminho, na semana passada, para que aplicativos de delivery, como iFood e Rappi, e plataformas como Mercado Livre, Americanas e Shopee possam anunciar, comercializar e entregar medicamentos.
Farmácias seguem responsáveis pela dispensação
Pelas regras mencionadas no debate, as plataformas poderão atuar na comercialização e na entrega, mas as farmácias e drogarias continuarão responsáveis pelo armazenamento, pela dispensação e pela relação com os laboratórios. A dispensação envolve o fornecimento do medicamento pelo farmacêutico e a orientação ao paciente sobre seu uso.
A autorização, porém, ainda depende da definição de regras específicas. As plataformas só poderão começar a oferecer medicamentos após a regulamentação do tema. Segundo a assessoria da Anvisa, não há previsão de data para a publicação dessa norma.
Para o varejo farmacêutico, o avanço dos marketplaces acrescenta uma nova frente à discussão sobre competitividade e distribuição de medicamentos, especialmente em categorias de alto valor, elevado giro e maior exigência de controle operacional.