Falsificação de medicamentos gera mobilização inédita do setor
Ao todo, 19 entidades divulgaram manifesto de apoio à Anvisa e à Polícia Federal no combate à venda irregular de medicamentos de GLP-1
por Adriana Bruno em
Poucas vezes o setor farmacêutico viu um número tão significativo de entidades representativas se unirem em torno de um único tema – apoiar a Anvisa e a Policia Federal em ações de combate à falsificação dos medicamentos agonistas do receptor do GLP-1, que se popularizaram e ficaram conhecidos como ‘canetas emagrecedoras’.
Ao todo, 19 entidades lançaram um manifesto dada a gravidade da situação; mais de 1,3 milhão de unidades de injetáveis irregulares já foram apreendidas entre janeiro e abril de 2026. Além disso, oito de 26 estabelecimentos inspecionados foram interditados por graves falhas técnicas e ausência de controle de qualidade. A carta conjunta ainda revela que transações irregulares de R$ 4,8 milhões foram identificadas em uma única operação.
Substância sem registro é encontrada em três estados (H2)
Não só a semaglutida e a tirzepatida vêm sendo alvos de falsificações. A retatrutida, substância sem registro em qualquer agência reguladora do mundo foi encontrada em três estados.
As entidades reforçam que não se trata de sufocar” ou retaliar nenhum setor e sim de proteger vidas. “Fiscalização sanitária é parte indissociável da regulação. Sem ela, a norma perde eficácia e deixa de proteger a população”, destacam e reforçam que a atuação da Anvisa se baseia em critérios objetivos e parâmetros técnicos aplicáveis a todo o setor produtivo, jamais em direcionamentos contra agentes específicos. “Desqualificar esse modelo favorece, sobretudo, quem atua à margem da legalidade”.
Quem opera na legalidade não tem o que temer
Exigir fiscalização é um ato legítimo das empresas que não operam na ilegalidade, defendem as entidades que ainda reforçam o papel e a missão da Anvisa em proteger e promover a saúde da população por meio da regulação sanitária de forma responsável, não admitindo qualquer tipo de flexibilização quando o que está em jogo é a segurança do paciente.
Edison Tamascia, presidente da Febrafar, falou com exclusividade com o Panorama Farmacêutico. “A falsificação coloca em risco a vida da população, compromete a segurança sanitária e ainda prejudica todo o ambiente regulatório e empresarial do setor”, reforça. O dirigente ainda avalia que iniciativas de fiscalização e combate a esse tipo de prática precisam do apoio conjunto de toda a cadeia da saúde, justamente para garantir mais segurança aos pacientes, fortalecer a confiança no setor e trazer mais previsibilidade ao mercado.
Para a Interfarma, a fiscalização sanitária garante que o acesso aconteça de forma segura para os pacientes. “O que está em discussão é mais do que o cumprimento de regras regulatórias: é a proteção da saúde. A atuação da Anvisa e da Polícia Federal no combate à produção e comercialização ilegal de agonistas de GLP-1 visa a proteção da saúde dos brasileiros. E é fundamental para impedir que produtos sem controle de qualidade cheguem à população”, afirma Renato Porto, presidente-executivo da entidade.
Desde o ano passado, a associação mantém parceria com o Conselho Nacional de Combate à Pirataria (CNCP) e o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) no intuito de alertar sobre os riscos da falsificação de medicamentos no país. O principal fruto desse acordo é a cartilha digital Falsificação de Medicamentos – Cartilha de Conscientização aos Consumidores, com informações sobre os riscos enfrentados por pacientes que escolhem utilizar remédios de origem incerta.
O diretor executivo da Abafarma, Oscar Yazbek, reitera os argumentos de Porto, acrescentando que o problema persiste justamente fora do ambiente regulado, especialmente na internet e em plataformas digitais. “Tudo o que está dentro da cadeia regulada tem um nível de proteção muito alto. É muito difícil um medicamento falsificado passar por distribuidores, indústria ou farmácias que seguem as regras”, explica.
Distribuidoras ampliam olhar sobre aumento de cargas roubadas
Indicadores da ABRADIMEX, baseados em estudos das consultorias Deloitte e Overhaul, revelam que o roubo de cargas de medicamentos gerou perdas de R$ 283 milhões às distribuidoras em 2024. Os indicadores de 2025 devem ser consolidados ainda neste semestre.
“Essa prática criminosa representa o primeiro passo para alimentar o mercado paralelo. Além de comprometer o abastecimento de 18 mil instituições de saúde atendidas pelas distribuidoras associadas, estamos presenciando o desvio de medicamentos para canais de comercialização sem o devido controle e fiscalização, com preços significativamente abaixo da média de mercado”, adverte Paulo Maia, presidente executivo da associação.
O risco agrava-se ainda mais por se tratarem de medicamentos que exigem controle rigoroso de temperatura para ter efeito terapêutico. Em reação a esse cenário, a ABRADIMEX vem trabalhando em acordos de cooperação com órgãos como a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).
Entre as propostas defendidas estão a regulamentação da venda no ambiente virtual e a maior fiscalização por parte da própria indústria. “É preciso também que os compradores adotem práticas rígidas de controle com seus fornecedores”, pontua.
Uso off-label atiça criminalidade
A obesidade já é tratada como epidemia global. Segundo a Sociedade Brasileira de Metabologia e Endocrinologia (SBEM), mais da metade da população no mundo viverá com sobrepeso e obesidade dentro de 12 anos se a prevenção, o tratamento e o suporte não melhorarem. As informações constam do Atlas Mundial da Obesidade 2023, publicado pela World Obesity Federation (WOF). O documento mostra ainda que a estimativa é de que os custos com a obesidade cheguem a US$ 4,32 trilhões, anualmente, até 2035.
Com o lançamento dos medicamentos agonistas do GLP-1, houve uma verdadeira corrida em busca de soluções rápidas para a perda de peso, até mesmo por motivos estéticos.
Mercado em ascensão
Um estudo divulgado em maio pela Peers Consulting + Technology, apontou que o GLP-1 tornou-se um pilar de crescimento do setor varejista farmacêutico. O mercado brasileiro de canetas emagrecedoras deve saltar de R$ 11 bilhões em 2025 para R$ 20 bilhões em 2026, impulsionado pelo vencimento da patente da semaglutida que aconteceu em março, abrindo caminho para genéricos com preços entre 30% e 50% menores.
Já um levantamento divulgado em abril deste ano pela NielsenIQ mostra que as canetas estão presentes em apenas 5% dos lares brasileiros. Porém, seu impacto é profundo entre quem as usa. Seis em cada dez lares que fazem uso das canetas admitem abdicar de outros gastos para acomodar o tratamento. A pesquisa mostra ainda que, entre os consumidores que compram o medicamento mensalmente,34,2% gastam mais de R$ 1.200 por mês, enquanto 28,5% desembolsam entre R$ 801 e R$ 1.200.
Entidades que assinam o manifesto
- Associação dos Distribuidores Farmacêuticos do Brasil (ABAFARMA)
- Associação Brasileira do Comércio Farmacêutico (ABCFARMA)
- Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (ABIFINA)
- Associação Brasileira das Empresas do Setor Fitoterápico, Suplemento Alimentar e de Promoção da Saúde (ABIFISA)
- Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (ABIQUIFI)
- Associação Brasileira de Distribuição e Logística de Produtos Farmacêuticos (ABRADILAN)
- Associação Brasileira dos Distribuidores de Medicamentos Especializados, Excepcionais e Hospitalares (ABRADIMEX)
- Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (ABRAFARMA)
- Associação Brasileira da Indústria de Soluções Parentais (ABRASP)
- Associação Brasileira da Indústria de Produtos para o Autocuidado em Saúde (ACESSA)
- Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (ALANAC)
- Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (FEBRAFAR)
- Associação das Indústrias Farmacêuticas de Capital Nacional (GRUPO FARMABRASIL)
- Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (INTERFARMA)
- Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (PRÓGENÉRICOS)
- Sindicato das Empresas do Complexo Industrial da Saúde no Estado do Rio Grande do Sul (SINDICIS)
- Sindicato das Indústrias Farmacêuticas no Estado de Goiás (SINDIFARGO)
- Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (SINDUSFARMA)
- Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos do Estado do Rio de Janeiro (SINFAR-RJ)